Um papo com a sua vagina

Um papo com a sua vagina

Você já falou com a sua vagina hoje? E com o seu útero, já rolou um papo? Pode parecer estranho, mas esta é uma técnica poderosa que tem me ajudado a superar anos de abuso sexual.

O primeiro abuso aconteceu quando eu tinha 06 anos de idade e me lembro como se fosse hoje. Eu estava desenhando uma amarelinha no quintal de casa quando o vizinho se ofereceu para brincar comigo. A tal brincadeira interrompeu minha infância e não faço ideia de quem eu seria de aquilo não tivesse acontecido.

Os abusos aconteceram até meus 13 anos de idade e assim como muitas meninas que sofrem abuso, não contei a ninguém. Guardei em segredo, segredo este que virou pesadelo, ansiedade e síndrome do pânico.

Quando finalmente resolvi romper com esse silêncio e contar à minha família, fui direto para o rol das estatísticas. Minha família não fez nada. Pasme! Lembro bem da resposta do meu pai: “isso é normal, acontece com todo mundo”.

Eu tenho um grupo de apoio a vítimas de abuso sexual. Até agora, são 172 meninas do Brasil inteiro. E acredite se quiser, de todas as meninas que apoio, as que falaram para a família tiveram respostas semelhantes ou piores à minha. Foram chantageadas, silenciadas. Não sei, sinceramente, o que acontece com a família tradicional brasileira. Tsi. Tsi. Tsi.

Assim como eu, elas desenvolveram uma série de problemas, que vai da ansiedade à anorexia (magreza extrema para não chamar a atenção dos homens). Estamos sozinhas?

“Denunciar? Tá louca, você vai acabar com a nossa família!  Ah, menina, não faça isso, ele é seu irmão! E homem é assim mesmo. Mas por que você bebeu tanto? E esses vestidinhos que você usa? E isso é hora de andar na rua? Foi você que seduziu meu marido! Se você não ficasse postando esse tipo de foto no Instagram, isso não teria acontecido.”

Tá, Juliana, e o que tudo isso tem a ver com papear com a minha vagina? Tudo a ver. Logo cedo eu descobri que estava sozinha, que o abuso é uma realidade solitária e amedrontadora (com os dias contados, assim espero). Então me lancei em uma busca constante por cura, por superação porque me recusava a ter a vida denotada por causa desses monstros covardes.

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A terapia é essencial. Você deve buscá-la. O autoconhecimento é essencial para controlar a ansiedade. O esporte me ajudou muito nisso. O violino me ajudou muito. A pintura. A literatura. Tudo que pudesse manter minha mente concentrada, disciplinada e em pleno controle de mim mesma. Até porque, não é legal sair correndo no meio de uma apresentação importante de trabalho porque a síndrome do pânico te pegou de surpresa.

Praticamente todas as meninas do meu grupo sofrem de ansiedade. E não tem nada pior do que uma crise dessas, que ameaça levar para longe a tua sanidade. O coração acelera, o corpo estremece, você começa a suar frio, sua visão fica turva e parece que você vai desmaiar.

Numa dessas crises enlouquecedoras foi que conheci a meditação e o yoga. Nosso corpo grava as marcas dos nossos traumas. Imagine o que a vagina, o útero de uma mulher violentada não guarda? Dentro da meditação conheci a técnica do Riso Interno.

Imagine que você é dona de uma fábrica e que um belo dia você vai visitar os seus funcionários para dar-lhes os parabéns pelo excelente trabalho. Essa é a meditação do Riso Interno, mas ao invés da fábrica, você visita o seu organismo. É, eu sei, parece loucura, mas funciona assim:

Em um lugar calmo, em que você esteja tranquila, feche os olhos e se imagine conversando com os seus órgãos. Comece de cima para baixo. Troque uma ideia com o seu cérebro. Diga que ele tem trabalhado muito bem, diga como ele é rápido, inteligente e peça para ele ter um pouco mais de calma de vez em quando. Imagine-se mesmo conversando com ele, e olhe para ele com carinho, com amor, elogie. Depois, vá descendo. Converse com seu coração, com seus pulmões, com seu fígado (aproveite e peça para ele ser forte, já que o fim do ano tá chegando), fale com seu estômago e peça desculpa por comer tanta porcaria que o machuca, mas agradeça por ele ser sempre tão excelente. Enfim, banque a CEO de você mesma, que chama funcionário por funcionário para dar os devidos reconhecimentos e minos.

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Desça mais até chegar à sua vagina. Aqui, eu sempre me emociono porque sei o que ela passou e quanto sofreu. Talvez quando chegar aqui você se lembre dos abusos que sofreu, ou das vezes em que transou só para agradar o parceiro ou parceira, e talvez você chore. Muito. Converse com sua vagina e diga o quanto ela é linda, o quanto ela forte por ter passado por tudo isso e peça perdão a ela por ter sido tão machucada e se comprometa a cuidar dela. Diga que ela não só, que você está ali para amá-la, para mimá-la. Nessa hora, faça um carinho. Trate-a como se fosse uma outra pessoa e faça amor com ela. Dê a ela um prazer que ninguém jamais daria. E enquanto faz isso, mentalize só coisas boas, mentalize que os traumas que ela guarda estão saindo, mentalize que ela vai ficar bem,que ela será feliz, muito feliz.

Juro, meninas, parece loucura, mas esta é uma técnica muito poderosa de autoconhecimento e cura. Tentem acrescentar à rotina de vocês e notem e depois me contem a diferença na vida sexual de vocês. Serão mais livres, mais desinibidas, mas poderosas.

Antes de me despedir, gostaria de incentivá-las a buscar ajuda, caso tenham sofrido algum abuso sexual. Tenho conectado meninas que sofreram abuso à terapeutas voluntária para sessões gratuitas e à distância, além de gerar conteúdos fechados (acesso apenas com senha) para ajudá-las nas esferas emocional, física e jurídica.

Envie um e-mail para julianarsduarte@gmail.com. Vou conversar com você, conhecer tua história e te apresentar às meninas que também passaram pela mesma coisa. A gente está se cuidando e formando um grande exército de minas contra o abuso. Vamos nessa?

Fico por aqui.

comentários

  1. Que lindo ver esse trabalho e tua dedicação sincera. Parabéns você é uma mulher que inspira!

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