“The Handmaid’s Tale”: a misoginia em seu ápice abordada em uma das melhores séries do ano

Handmaid Cover

Em Mad Men Elizabeth Moss deu vida a Peggy, uma secretária de uma agência de publicidade dos anos 60 que, em meio movimento dos direitos civis, feminista e hippie, tentava conquistar um espaço melhor no mercado de trabalho, ainda mais machista que nos dias de hoje, onde cargos mais altos eram veementemente negados às mulheres. Ao longo de 7 temporadas vimos a ascensão de sua personagem que aos poucos ia conquistando cada vez mais seu lugar ao sol. Enquanto Peggy “vai ao céu” e representa as mulheres que começaram a galgar melhores posições em empresas, Offred, personagem de Moss em The Handmaids’s Tale, vai ao inferno em uma sociedade distópica, que lembra os dias de hoje muito mais do que gostaríamos, onde mulheres e minorias em geral, cada vez perdem mais os seus direitos básicos após uma grande crise política.

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes.
Você terá que manter-se vigilantes durante toda a sua vida” – Simone Beauvoir

Baseado no livro homônimo de Margareth Atwood, de 1985, a série, produzida pelo serviço de streaming Hulu, se passa num futuro próximo, onde as taxas de fertilidade caem em todo o mundo por conta da poluição e de doenças sexualmente transmissíveis. Em meio ao caos, uma teocracia cristã toma o poder dos Estados Unidos, que agora se chama República de Gileade, com o propósito de restaurar a paz. A sociedade passa  a ser cada vez  mais militarizada, hierárquica e fanática, com novas castas sociais, nas quais as mulheres são brutalmente subjugadas e, por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo ler. A infertilidade mundial resultou no recrutamento das poucas mulheres férteis remanescentes em Gileade, chamadas de “servas” (Handmaid), de acordo com uma interpretação extremista dos contos bíblicos. Elas são designadas para as casas da elite governante, onde devem se submeter a estupros ritualizados com seus mestres masculinos para engravidar e ter filhos para aqueles homens e suas respectivas esposas. Esse horror é representado através de diversas personagens, a principal delas é Offred, vivida por Elizabeth Moss. Tendo em mãos uma personagem disposta a não se render, Moss nos transmite através de seu olhar toda a força, determinação e sofrimento de sua Offred, numa das atuações mais impressionantes da TV americana recente, que lhe rendeu uma indicação ao Emmy de melhor atriz dramática esse ano, assim como a série também foi nomeada em outras categorias, incluindo Melhor Série Dramática.

Tantas coisas são proibidas agora

O sucesso da série tanto nos EUA quanto Brasil, onde ainda nem estreou, mas já vem conquistando uma legião de fãs, é sintomático de um tempo onde em meio a modernização e os avanços nas áreas tecnológicas e da saúde, as minorias ainda se veem obrigadas a lutar para conquistar, e muitas vezes até não perder, direitos básicos e essenciais. Segundo o El País, “o uniforme vermelho das criadas foi tomado nos últimos meses por vários grupos de mulheres como um símbolo de protesto. No final de junho, em Washington, várias mulheres vestidas como as donzelas de Atwood protestaram diante do Capitólio enquanto o Senado norte-americano debatia a reforma do sistema de saúde que pretende suspender o financiamento da Planned Parenthood, que oferece um sistema de saúde semelhante ao do planejamento familiar europeu. Não era a primeira vez que acontecia. Em março, um grupo de ativistas tingidas de escarlate irrompeu no plenário do Senado do Texas para protestar contra uma lei que dificultaria o aborto no Estado. Outro exemplo é o das cem mulheres de vermelho que enfrentaram há alguns dias o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, quando se dirigia para fazer um discurso para a Focus on the Family, uma organização cristã dedicada a promover valores ultraconservadores. The Handmaid’s Tale também ganhou vida no Parque do Retiro (Madri) na última edição da Feira do Livro. A Biblioteca de Mulheres encenou uma performance em que um grupo de voluntárias caminhava, com capa vermelha e touca branca, passando caixas de livros de umas a outras para simbolizar o peso da herança literária feminina e reivindicar visibilidade às autoras.”


E o mais incrível nisso tudo é que o impacto social da série, e sua representatividade em nenhum momento se sobrepõe a qualidade da obra. Vivemos em tempos onde o audiovisual cada vez mais se vê tomado por filmes, séries, propagandas que buscam a tão falada representatividade, a relevância social, mas que se afundam em lugares comuns e discursos rasos enquanto deixam a dramaturgia e a técnica em segundo plano, entregando produtos ruins ou medíocres que acabam sendo abraçados pelo público alvo, justamente pela carência de obras que abordem assuntos como esse. Handmaid’s Tale vai além, o discurso aqui não soa como panfleto e muito menos como mero oportunismo por temáticas assim estarem em alta. Existe um esmero, uma preocupação não só em tratar o tema com o respeito e delicadeza que ele precisa, como em todos os aspectos técnicos: da direção, passando pela fotografia, arte, atuações e roteiro. Tudo funciona muito bem e o resultado final é um dos produtos audiovisuais mais interessantes lançados nesse ano, que dá a devida importância ao tema abordado e, sobretudo, não subestima o telespectador.

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