Tcnxmsnm e Curandeirismo

curandeirismo

Durante o processo de invasão colonial instalou-se a morte, cerca de 90% das populações nativas da América foi dizimada, setenta e cinco milhões de mortos, um verdadeiro holocausto. Ao longo do século XVII a população europeia passa por uma redução, apenas menor que a peste negra, atingindo seu cume na Alemanha. Em comum essas mortes têm a classe social dos mortos: pobres. Mas não se tratava apenas da morte desses pobres, mas também de sua recusa em permanecer reproduzindo.

A recuperação da taxa de natalidade na Europa no século XVI está vinculada com as políticas pró-natalidade, e demonização da contracepção contra a baixa da natalidade que ameaçava o recém nascido capitalismo. Políticas populacionais e biopoder. É inefável a violência com que eram tratados os comportamentos que não se adequassem a meta do crescimento populacional. As questões de paternidade e a privatização da propriedade aumentam o poder do macho no cerceamento e desapropriação do corpo feminino em nome da moral do patriarca, se somando as políticas públicas. Não podemos tratar com coincidência a matança de mulheres, a criminalização das formas contraceptivas, e a centralização da vida nos domínios do trabalho no âmbito econômico. A riqueza de uma nação dependia do seu índice populacional.

Centenas de mulheres morreram ao longo de dois séculos e meio durante a Renascença. Um holocausto. Extermínio de mulheres com acusação massiva de que essas mulheres pobres eram inimigas da humanidade. A documentação referente a caça de bruxas nos coloca diante de acusações fantásticas e silenciamento de padres, motivada por políticos insanos, em pleno avanço do capitalismo, causador desses feminicídios. A caça de bruxas é definitiva para formação da sociedade moderna capitalista. Pela destruição de práticas sociais, e formas de vida, enfim subjetividades, cuja existência era um obstáculo ao desarrolho capitalista. A caça a bruxas significa destruir relações e práticas incompatíveis ao capitalismo.

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A  força de trabalho proletário nasce da expulsão dos campesinos de suas terras, e da expropriação por parte do estado do corpo das mulheres, para transformar o útero num aparelho de criação de força de trabalho. A moralização limita o acesso da mulher a sexualidade ao ato de reproduzir para evitar obstáculos da autoridade do homem sobre as mulheres. A caça de bruxas garantiu de uma vez por todas a submissão da mulher ao homem, elas que são mais suscetíveis ao diabo, devem ser controladas pelo homem dentro da família e da sociedade. A bruxa era a terrorista.

O capitalismo deslegitima o trabalho que não recebe salário. Essa concepção do que é trabalho não havia sido tocada por Marx, e implica em proposições políticas muito novas. Porque quanto trabalho escravo estava invisibilizado, sobretudo, nos domínios dos signos do feminino. A desvalorização do trabalho feminino está estreitamente vinculado com o desprestígio do trabalho reprodutivo. A mulher é a primeira classe social: a reprodutora. Silvia Federici nota que a partir da análise das relações das mulheres estão muito vinculadas com o racismo, e com a escravatura indígena. Nesse contexto o racismo e o sexismo estreitamente ligados, são pilares históricos estruturais para garantir o trabalho não pago, a desvirtuação que o capital opera da deslegitimação dos trabalhos.

Ancestrofuturismo e o resgate do curandeirismo

Foucault na história da sexualidade III, o cuidado de si, está investigando Artemidoro, um leitor dos sonhos do mundo Grego. A leitura onírica da pornoklastia, é uma terapia-soteriodes não-falocêntrica, não-heterocentrada(a negativa opera com função de não legitimar o Mesmo afirmando seu outro, ou seja, dizer vaginocentrada invisibilizaria o problema seríssimo do domínio da linguagem pelo universal Mesmo).
Muitas das formas de vida dizimadas para garantir essa arquitetura social, eram mulheres curandeiras, que cuidavam dos pobres. A fome é uma realidade, muitas brujas eram acusadas de comer na madrugada os animais dos vizinhos mais ricos. Essa construção da noção de que a mulher é invejosa, expropriadora, alimenta o medo dos pobres que nova classe sente. As bruxas eram mulheres pobres que se recusaram ser invisíveis e morrer de fome. Essas mulheres que cuidavam dos pobres eram um pouco doutoras e tinham poder social. Este ser de conhecimento não cabe no capitalismo, sobretudo, depois do surgimento da autoridade médica, a curandeira é poderosa, e por isso deve ser perseguida, eliminando essa forma ancestral de ciência e sua subjetividade poderosa incompatível com o capitalismo.

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A mulher medieval possuía mais controle sobre seu trabalho de parto e métodos contraceptivos que a mulher contemporânea em muitos países. O movimento da escuta dessas matriarcas hoje, de catalogação de seus conhecimentos, é uma prática política de resistência, um braço do feminismo potente, que une a luta da mulher com a luta dos povos que hoje sofrem com o genocídio, os indígenas brasileiros. Uma ação que ao mesmo tempo valoriza trabalho dessas parteiras, e coloca o lugar do parto de volta nas mãos da mulher parturiente.

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