Surubinha é uma coisa, cultura do estupro é outra

A música "Surubinha de Leve" causou fúria (com razão) pelo teor absurdo em que incentiva a cultura do estupro e ainda faz confusão com "suruba", que não tem nada a ver com isso.

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Por definição, segundo o dicionário do Aurélio suruba significa: ‘atividade sexual em grupo’ ou ‘grande confusão’. No dicionário informal, também é lida como: “Festa erótica, onde participam homens e mulheres, todos com interesse sexual. Nessa festa todos integrantes estão liberados para fazer sexo à vontade com todas as pessoas”. A cultura do estupro é definitivamente outra coisa.

Percebam que, em todas as possíveis definições, o ato é descrito partindo do princípio em que todas as pessoas envolvidas estão conscientes de que estão em uma suruba, correto? E não em uma festa qualquer, de qualquer outro tipo. Dito isso, vamos para a próxima definição.

Cultura do estupro. Estupro, segundo a definição do Aurélio, significa: ‘Atentado consumado com violência ou enganoou ‘violar’, ainda ‘forçamento, violação. ’ Isso quer dizer que, nessa situação, alguma das partes envolvidas no ato sexual não consentiu, não soube, não esteve de acordo…foi enganada (pra ser bem gentil).

São duas coisas totalmente diferentes que no recém possível hit do verão 2018, do MC Diguinho, aparentemente foram confundidas, não é mesmo?

Canção do absurdo

O trecho mais violento (polêmico é fofo demais) da música diz o seguinte: “Taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua”. Numa leitura nada elaborada é fácil entender que, nesse caso, a ‘mina maluca’ estava bêbada (ou seja: enganada e possivelmente não consciente de suas escolhas – o que, por definição, podemos considerar um estupro), foi penetrada e em seguida abandonada na rua.

Em nenhum momento a música sequer insinuou que todos os envolvidos da ‘surubinha de leve’ escolheram ou, melhor, sabiam estar em uma ‘suruba’.

TÁ.TÁ.TÁ. BLÁBLÁBLÁ. Parece até teoria da conspiração, mas não é. Isso é a famigerada, evitada e mal falada: “Cultura do Estupro”.

Que nada mais é do que o fato da sociedade reproduzir, romantizar, e, vez ou outra, até fantasiar com cenas e situações onde mulheres são enganadas, violadas, silenciadas, amordaçadas, amarradas, obrigadas… e, bom, parece que isso é uma chocante, mas aí vira a página, vem uma nova música, uma nova novela, uma nova copa do mundo e tudo acaba em pizza.

Questão cultural?

O ruim é pensar que esses comportamentos estão tão enraizados que, mesmo que a música tenha saído do ar e  banida nas principais plataformas (Spotify, Deezer e Youtube), ela -em algum momento- foi aprovada (!!!).

A justificativa do cantor foi que “a música retrata a realidade que ele vive”. Isso nem é uma justificativa, né? É mais um dado (dentre tantos!) que se soma à cultura do estupro e aos estudos de feminicídio, violência doméstica e violência contra mulher. Isso reforça, preocupa e nos faz refletir: estamos acostumados com a violência? Ao que tudo indica, sim.

Um comentário

  1. Texto perfeito Gabriela!
    Não se trata de sexo. Sexo é lindo, liberto! Se trata de violência, e essa, infelizmente está ignorada por essa cultura.

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