Sexualidade e Experimentação Criativa

tecnoxamanismo

A sexualidade não é uma revelação, uma verdade profunda sobre o sujeito. Na realidade é uma ficção política. A sexualidade é sobretudo experimentação, o uso estratégico, recreativo e criativo do prazer está vinculado com os desejos. O uso reflexivo dos prazeres nos levam a desejos inusitados que não são aprioristicamente imaginados. O uso comunitário da vida, a criação de afinidades emergem da experimentação dos prazeres. Um território a explorar criativamente. Prazeres da alimentação, bebidas, uso de drogas e do sexo. Como agenciar nossas potências pelos prazeres, não apenas o sexual mas todas as citadas esferas. Não se trata de descobrir desejos, mas de construí-los. Não é freudiana a equação, é esquizoanalítica, não é descobrir mas inventar, construir.

Mas e a mulher? A máquina política de caçar bruxas é responsável pela construção de uma nova imagem da mulher, em âmbito social no capitalismo. A construção de uma escrava da procriação, que se tentasse um aborto com uma curandeira seria denunciada por vizinhos e familiares e morta, isso do início do séc XVI até o fim do XVIII. Um processo exemplar e emblemático de como construir uma nova identidade do feminino no capitalismo, a mulher da Idade Média ainda é combativa, e coopera em vida coletiva com outras mulheres, a mulher pós fogueira, é passiva, e sobretudo assexuada, a bruxa é a mulher erotizada. Essa máquina de persecução é exportada ao México e Zonas Andinas, onde também homens são acusados de bruxaria, servidores do diabo, que serve para romper a resistência do índio em entregar aos colonizadores as riquezas que eles acreditavam esconder. Um vínculo claro entre a caça de bruxas e o genocídio indígena. As mulheres são em práticas sociais as mais resistentes aos processos de colonização.

Construção de desejo é uma ética-arte de viver. Toda sexualidade acaba sendo normatizada no heterocapitalismo, que assimilam e fagocitam. Descobrir a própria identidade nos faz incrementar as potências. Ao abandonarmos a noção jurídica de poder, concebemos o poder produtivo. O poder produz reprimindo. A liberdade não é o sujeito que se coloca dissidente ao poder. Porque a própria concepção de sujeito já está fagocitada. O poder controla atos mais sutis, elementos do corpo social nos domínios da subjetividade, para melhorar o rendimento e submeter a conduta. A biopolítica controla a morte, e sufoca a vida. O próprio conceito de sujeito sexual é uma invenção normatizadora, para garantir as funções reprodutivas do sexo, num modelo edipizante.

A heterossexualidade compulsória, como regime político totalitário que impede qualquer outra forma de relacionamento, um regime colonialista que opera como uma língua majoritária. O outro é sempre o analisado, a mulher o gay, a lésbica, a afrodescendência. Não existe a necessidade de existir por exemplo um dia do orgulho hétero, dado que o sistema político já não apenas se garante como de forma violenta impede a legitimação das demais existência, a não ser no contexto normativo e heterocentrado, onde toda leitura do mundo é totalizante. Não podemos construir nossas próprias categorias, pois estamos amarrados ao binarismo já no gérmen da linguagem. A mulher é o outro diferente. A mulher não é dado biológico, mas uma categoria política que só faz sentido quando temos a heterossexualidade, a monogamia como real e inquestionável. Ou seja a heterossexualidade sustenta as categorias homem e mulher e a categoria homem mulher sustentam a heterossexualidade, fora deste contexto epistemológico, nada disso faz o menor sentido.

Essa equação é responsável pela genitalização da sexualidade. E sua redução aos 15 minutos de felação penetrante que antecipam o orgasmo do macho (quando dura 15 minutos) e que fazem da heterossexualidade não só totalizante, mas profundamente chata, diante de toda gama do erótico a ser explorada. Ou seja os piores problemas do capitalismo não estão na organização econômica, mas na dominação das formas de comportamento. E o útero feminino é um território político controlado pelo macho. Na Alemanha protestante uma parturiente podia apanhar por não ter feito força o suficiente ou mostrado suficiente entusiasmo durante o trabalho de parto, tamanho o alcance das micropolíticas pró-natalidade no corpo da mulher. A heterossexualidade é um regime político, que controla nossas relações. A heterossexualidade que diz que você precisa ser da família de uma pessoa pra ser o acompanhante dela no hospital, hospital mesmo esse que afasta as mulheres em trabalho de parto de seus companheiros para feri-la violentando-a afim de provar pra ela nas éticas do patriarcado como o sexo é ruim.

Se exploramos os prazeres de forma criativa e reflexiva praticamos a liberdade

Leia a primera parte: Tcxnxmsnm e Curandeirismo

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