Sexo casual: a linha tênue entre o empoderamento e a coisificação do corpo da mulher

Sexo casual

Nos meus tempos de adolescente, ali entre a 7° e a 8° série, lembro que um dos meus grandes monstros da “vida social” era ser vista como a “mina fácil” ou a – dita principalmente pelos meninos, é claro!1!1! – “putinha” da escola. Na época, 2007/2008, essa fama era atribuída às meninas que ficavam com mais de um carinha ao mesmo tempo, usavam as roupas que bem entendiam, falavam e riam alto, dançavam e, com ajuda dos memes atuais, “derrubavam os forninhos”. O que era ou, ainda é, meio inaceitável, né?

Felizmente o debate sobre a postura do que é ser uma mulher “fácil” cresceu e, hoje, dez anos mais tarde, muita coisa mudou: UFA! Exemplo dessa mudança é o feliz cenário onde mulheres tomam a iniciativa e convidam seus pretendentes para “o primeiro encontro”; mulheres transando e, pasmem, não mandando mensagem no dia seguinte and more.

Muitas musas nos salvaram do puritanismo ao canto entusiasmado de hinos como: “é minha, é minha, a porra da buceta é minha” da Valesca Popuzada, ou “Hoje, eu tenho uma proposta a gente se enrosca…” da Ludmilla e da rainha pop do Brasil, Anitta, em “Só me olha, me deseja… quero ver se você vai aguentar” – eu ficaria horas dando exemplos.

Com felicidade, podemos dizer que – em alguma medida – avançamos na apropriação do nosso corpo. Olhamos com mais cuidado e gentileza para os nossos desejos, para a nossa sexualidade, para o nosso sexo-trepada-foda. Sabemos um pouco melhor do que queremos, quando queremos e com quem queremos. Finalmente descobriram que se homens devem transar, e possivelmente transam com mulheres, estas também devem transar, oras… É matemática.

Fato é que, mesmo assim, nós ficamos a mercê dessa “aceitação sexual” de toda uma sociedade por tanto tempo que, às vezes, é um pouco complicado “lidar com tamanha liberdade” – muitas aspas. Se por um lado temos segurança em dizer em alto e bom tom “meu corpo, minhas regras” por outro, ainda ficamos angustiadas quando percebemos que – vez ou outra – ainda queremos, sim, um encontro com cinema, pipoca e jantar e, só depois, sexo casual.

Em uma sociedade machista tal qual vivemos, é tênue a linha entre o nosso empoderamento sexual, sem renunciar, também, aos nossos afetos e vulnerabilidades. Por experiência própria, logo que reconquistei os territórios do meu corpo e entendi que eu podia transar sem me apaixonar, que eu podia transar por transar sem ter medo, que eu tinha desejos e não só satisfazia a desejo… Bom, o mundo se abriu e eu… Causei.

Fiquei um ano inteiro saindo com vários caras, várias meninas, transando em todos os primeiros encontros que me dessem na telha e, o que teve de bom, teve de ruim. Muitos boys lixos, fodas mal dadas, gente babaca. Reparem, não estou dizendo que isso é por conta da minha escolha ativa em ‘transar por transar’ – eu tive encontros horríveis, de certo por conta do meu “dedo podre”. Mas, fato é que, embora eu estivesse plenamente consciente das minhas escolhas eu custei a entender que mesmo que eu pudesse fazer todas aquelas coisas, e ter todas as transas casuais do mundo e isso fosse incrivelmente libertador, eu também poderia não querer. E isso em nada iria minimizar o meu empoderamento sob meu corpo e sobre a minha sexualidade. Não, não mais!

E é esse o ponto: que possamos ser belas, não-recatadas e “do bar”, que possamos transar no primeiro encontro, com várias pessoas ao mesmo tempo e não atender no dia seguinte… Mas que possamos ser tão sexualmente libertas, desejadas e donas de nós mesmas APESAR DE.


Gabriela Miranda, 24
Por formação, publicitária. Mas, antes disso, muita coisa aconteceu: descobriu a paixão por blogs em 2009 e, desde então, sonha em ter um – projeto em andamento. Escreveu para o @blogdeclara, pra @revistafalaguerreira e agora está por aqui: no ‘Cínicas’ – sorriso de orelha a orelha por isso.  Também se considera: sagitariana – feminista – textão no facebook – instagramer e viciada em bolo de chocolate.

Veja também:  Terapia de casal: o que é e quando procurar

IG: @gabimirandaz | FB: gabi.mirandanogueira| YT: Gabriela Miranda

 

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