Sense8 - Uma reflexão sobre a série e o último episódio

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“Os laços que unem outra pessoas a nós só existe na nossa mente”  Proust

O último episódio de Sense8 é um bom longa de ficção científica de ação, capaz de cativar mesmo quem não conhecia os personagens da série. O estilo filosofia especulativa vira arte com as irmãs Wachowski e nasceu um clássico. Sense8 é uma série de ficção científica que se passa em um futuro/presente onde apesar dos seres humanos matarem os diferentes, de alguma forma eles resistem. Teorias como de Joseph Chilton Pearce que falam sobre comportamentos tidos como paranormais, são na verdade ultra normais e parte da evolução natural da espécie humana, mas que não somos hoje mais pessoas com essas particularidades evolutivas, porque é natural o ser humano matar como demoníaco em várias formas distintas sociais o  que lhe é diferente. É possível encaixá-la também num presente/futuro onde as teorias de Rupert Sheldrake ecoam, e portanto (teoria dos 100 macacos), não existindo nada mais similar com um cérebro humano que outro cérebro humano que estes se comuniquem entre si de maneira telepática por ressonância mórfica.

A trama de ficção segue um percurso e tem um recorte guiado pelo nascimento de um grupo de 8 pessoas unidas mentalmente. Essas 8 pessoas, cada uma de um lugar do mundo, servem não apenas de suporte estético – onde o senso comum do tipo de cinema vinculado a cada grupo étnico vai dar multiplicidade estética ao seriado de maneira super caricata mas bem feita, mas também de maneira que a micropolítica dos personagens se misturam a macropolítica dos países onde os personagens se encontram.

Assim Rajan o marido da Kala, que tem uma empresa farmacêutica na Índia, e manda remédios vencidos para África (não vamos comentar as teorias de conspiração vinculadas as medicações que causavam problemas de imunodeficiência na década de 80, que não entraram na Europa mas sim na América Latina e África, e o agente laranja contra a comunidade gay até porque na escolha da vida a temática de falta de remédio não entra e o personagem ficou um pouco fraco sem sua história pessoal representada no último episódio) atinge diretamente Capheus cuja mãe sofre de HIV. Isso atinge Kala porque os super poderes dos Sense8  são empatia e compartilhar conhecimento através da brainet natural de um cluster/grupo.

A cena final com o dildo nas 7 cores fala bem que ruptura epistemológica mexeu com a cabeça das irmãs Wachowski. Os fãs de Sense8 entenderam bem a mensagem, o fenômeno de dar um longa metragem de presente de episódio fim pra sua série favorita mostra como um cluster de fã de Sense8 fans criaram um swarming com poder de voto consumidor. Acho natural a série ter um público brasileiro enorme, dado que a antropofagia é o terceiro super poder dos sense8.

É óbvio que desde seu primeiro sucesso as irmãs conhecem o poder da hiperstição, essa potência que a ficção tem de se tornar realidade, e isso aparece bem em Sense8 nas soluções pro último episódio. Vamos falar sobre elas, este texto tem spoiler, se ainda não assitiu,  pare por aqui.

Eu queria fazer um curso sobre a série mas sem tempo, vou me contentar em comentar por cima o último episódio. Nosso pequeno ladrão assassino Wolfgang, que está sequestrada, ganha o carisma do público, descobrimos quem foi o pequeno Wolfgang, filho de incesto e estupro, de um monstro protegido como todo patriarca escroto, só uma criança ingênua não vê na primeira cena que este pai que merece o parricídio estuprou a própria filha, as irmãs sensíveis fizeram um enteada….vai falar disso com uma mãe adotiva para a surra que você leva…
A fuga de Wolfgang depende muito dele, depende dele acreditar que merece viver.

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Suicídio, porque não falar de suicídio, afinal as irmãs são trans, uma das comunidades que mais se suicida no mundo. Bem, não se suicide porque se você desiste, quem você ama vai achar boa ideia, sem culpabilização, mas outra perspectiva, Wachowski escolheram a vida. Pensando que Neo era o Jesus com poder de ressuscitar, eu não esperava diferente. Acho ótimo tô cansada de ver gente morrendo.

Só alguém muito ingênuo, ao ver Neets chorando chorando de frente com a Torre Eiffel, depois da frase mais linda “todas as possibilidades estão a um beijo da realidade” não tem certeza que nosso casal, de mulher lésbica negra filha de panteras negras poliândricos que salva mulher trans da lobotomia – detalhe Octavia Butler! – vai casar na Torre Eiffel. Isso é maravilhoso, porque vai contra nossas ficções mainstream de mulheres trans mortas. Temos toda menina trans e sapatão negra ganhando o direito, e a memória afetiva de se imaginar como uma princesa disney futurista queer casando no símbolo da Revolução Francesa. É o poder de usar a ficção para criar novas realidades, pelo afeto empatia, e possibilidade.

Mas até o casório de novela, vai ter tiro, espírito do Van Damme, e hackerismo anti sistema ou seja tudo que a gente ama, até estilo musical indiano Sense8 nos deu. No último episódio nossa Dj Blue vai dar um dos momentos mais gostoso a hora road movie da série. Dando o tom da noção de família que é tão própria da comunidade queer que os 8 representam tão carismaticamente: Mulheres chinesas podem se apaixonar? Com quantos homens posso ficar? Mas nós éramos gays, não?

A chegada de Rajan não nos traz duelos de espadas ao entardecer, temos um homem disposto a salvar seu rival, por amor a sua mulher mutante. Tava tudo indo bem? Mas isso acontece correndo da OPB. Cinema série é corpo socialmente escrito. Escritura é uma prática social de construção de subjetividades, estamos dando os tons do futuro. Falar de gênero é tão obsoleto quando se pensa em trans humanismo, mas e os extra humanismo, o demasiado humanismo? O desumanismo animista?

Correndo da OPB? É nessa pseudo fuga do começo, que entendemos o que Judith Butler disse em sua passagem pelo Brasil. Que essa onda conservadora, era os patriarcas sacando que perderam e tentando salvar a moral os bons costumes a família e a tradição as custas de matar todo mundo e guerra e crise. Bem, não é hora de fugir. É hora de lutar. E não vai ser um Cristo que nos vai salvar, o Messias Neo que dialogava com o Sky Lucas. Não baby, a união faz a forca. Vamos todos juntos, em gang comuna, buscar Neets que me defendeu, é hora da heroína trans sapatômica ser van-dama. Essa cena é a cama do momento de Daniela mais pra frente.

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A Blue é bi? E você não sabia? As pessoas saem te contando que são hétero? Milton fica na sua Daniela não é só uma patricinha atriz. Ela sabe usar os homens como arma de conhecimento, ela manuseia bem uma arma como as garotas que aparecem na primeira cena do women’s war revolution baby, ela tem um salto bafo jeans, substituto semiótico do dildo, ela vai acabar com você moralmente também. Neets levanta a bola traiçoeira e Daniela corta fechando seu momento marcando point “conheço seu tipo, homens que confundem crueldade com forca, vivendo suas vidas insignificantes e limitadas, nós dois sabemos que se eu apertar o gatilho ninguém vai chorar por você, a insignificância do seu tipo de vida, não é para temer, é para ter pena.”

Mudar o mundo? Mudar si mesmo? É possível fazê-los separado? Acordo por todos? Não dessa vez o acordo é #nenhumamenos .

Com quem Kala vai ficar? Bug personagem maravilhoso, o BBF engraçado. Como os anões da Branca de Neve, ou O Ray Evangeline da Tiana, o Ross no casamento da Susan, o Linguado e o Sebastião de Ariel. Dá o tom das novas regras. Se não sabemos o que é empírico e o que é transcendental, se os avanços científicos mudam as imagens do pensamento diariamente, se o tomate causa câncer ou evita o câncer, porque nossa sexualidade deve ser hétero monogâmica e mainstream, se nosso amor é maior que isso, se caber nisso nos fere? Se tá fodendo tudo? Se o ciumes só serve pra vender meia e extensor peniano porque a compreensão e a responsabilidade afetiva não podem ser nossos agenciamentos? Pode! Mais novos corpos socialmente escritos na mídia mainstream! Valeu ai irmãs Wachowski.

Comer junto, celebrar, antes de guerrear novamente, comemorar as batalhas. Plot, surpreendente, matriarca tríade na Lacuna, a rota de fuga dos borderlines. Momento Blue o gozo mental, não genital, sonoro, falaram sobre soluções deus ex machina…que tal um bom Depeche Mode?

Ácido pras mães reprimidas e narcisistas verem a  luz, nada de complexo de Electra, fadas unicórnias lisérgicas, a guilhotina simbólica do que se deve matar no outro, não matar o outro…

Depois de tudo que passamos, vocês voltariam a ser o que éramos antes? Destaque para sensualidade sutil de Nomi…Mais um BBF arma de longo alcance! Tensão, ansiedade, o que temos em comum? Queremos a mesma mulher viva, não tem Carmen de Bizet nem de Prosper Mérimée, tem Kala falando “gatos reajam, chorar não salva vidas”. Boas idéias e trabalho em equipe sim. Fogos de artifício, monogamia pode, heterossexualidade também, trisal dois boy uma mina, mais um trisal dois boy uma mina, bissexualidade está sendo representada a gente não tá em duvida ta vivendo, mudar é a contingência de existir para todos não só para mulheres trans e bissexuais, a vida é feita de instantes…Orgia Sense8 para todos vocês!

Amor vincit Omnia .
Eu não sou só eu sou nós…

comentários

  1. Marcel Proust. Alain é ex piloto de Fórmula 1.

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