PopPorn e como chegamos aqui

PopPorm

O ano era 2003, a internet ainda era discada e um namorado me apresentava uma produtora brasileira de Alt porn, a Xplastic. Foi ali, na frente do PC meio sujo, em um quarto longe da capital de São Paulo, que eu descobria que era possível alguém no Brasil gravar algo que estava mais próximo ao meu gosto. Na época um blog, a produtora juntava o DIY do punk na estética, qualidade (talvez isso não seja um elogio, mas na época era transgressor) e trilha sonora. Não é de se espantar que anos depois, já no twitter, @xplastic tenha sido um dos perfis com quem troquei mentions e mensagens diretas. Talvez por isso mesmo, no primeiro PopPorn, em 2010, eles me convidaram para participar do workshop do Pornô faça você mesmo.

(a primeira vez que vi Fabi Thompson e a péssima qualidade do meu celular na época)

Na sociedade atual e com a avalanche de informações que obtemos online, a pornografia ainda parece ser um tipo distorcido de educação sexual para os jovens. Com isso a objetificação do corpo feminino e posições sexuais feitas para beneficiar a câmera são quase que um guia na vida de recém-iniciados na vida sexual. E isso fala muito sobre a real falta de traquejo da nossa sociedade para falar sobre sexo, jogando ainda para o parcela do tabu toda atividade sexual realizada e conferindo ao meio de entretenimento a obrigação, que nós enquanto sociedade precisamos assumir.

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Meu trabalho com a Xplastic andou lado a lado com o meu trabalho no PopPorn, talvez se não fosse pelo incentivo da produtora eu nunca teria me voluntariado para organizar as exposições do festival para a Suzy Capó. A grande mulher por trás do PopPorn, vivia com o pé na porta com doçura e grandes sacadas. Foi sob a benção da Suzy que comecei a perceber que falar sobre sexualidade positiva via pornografia é uma forma prática de falar sobre algo complexo na teoria.

(Suzy e seu olhar doce)

Se existem muitas mulheres em frente às câmeras no pornô convencional, atrás delas são poucas. Por ser um meio constituído por homens no poder (e por isso cair no clichê de achar que mulheres não vinculam “o visual e o sexual”) a indústria mainstream parece não se importar em produzir filmes que aticem o interesse feminino. Stagliano há alguns anos falou sobre como a evolução da pornografia pós internet se deu apenas em vias comerciais, ignorando completamente todos os mercados de nicho que o mainstream faz questão de negligenciar, um deles a pornografia para mulheres. Já tem alguns anos que diretoras como Erika Lust e Petra Joy tem se destacado pelas produções, considero um avanço uma pornografia ser considerada para mulheres, em um mundo onde existem conceitos como “pornografia para ver em casal”, mulheres passaram a ser vistas como consumidoras que possuem fantasias sexuais e se excitam com estímulo visual. E é com certo orgulho posso afirmar que em todos os anos que trabalhei no PopPorn sempre houve pluralidade, a necessidade e vontade de colocar de maneiras mais amplas as retratações da sexualidade humana fugindo do olhar injusto e exclusivo do homem cis hétero branco. Do ano que fiz o workshop para agora as coisas mudaram e evoluíram: nesta edição há uma mesa sobre produção para filmes adultos destinados a mulheres que você pode adquirir ingressos aqui.

(Em contas a partir de R$45 você pode ver filmes e fazer um workshop)

As pessoas querem diversidade e nada melhor que um festival que acontece todo ano e se esforça para trazer filmes de vários cantos do mundo, sempre falando sobre sexualidade positiva, além de mesas de debate, exposições, feirinha e muita liberdade. O festival esse ano acontece em 03 e 04 de junho, em São Paulo. E tem venda antecipada para a tradicional PopPorn Party.

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Há um ano me despedi do festival para tentar novos caminhos, mas sei o quanto toda a vivência ao longo dos anos me fez enxergar o mundo de uma maneira menos limitada. Vale a pena conferir e ajudar o festival a se manter. Eles precisam de voluntários para as traduções de legendas e filmes do festival, de uma costureira experiente para ajudar com um importante projeto dentro do festival e precisam de divulgação. Caso você queira ajudar entre em contato via poppornadm@gmail.com.

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