A pedra não voa se alguém não atira

A pedra não voa se alguém não atira

Nada assusta mais um homem mainstream que uma mulher autônoma. Jamais vou poder culpar um homem por se apaixonar por uma mulher, mas eu posso sim, notar um padrão peculiar de que todo homem, com exceção dos que já namoravam, que eu comecei a ficar, começava a namorar em muito pouco tempo, uma outra mulher que não eu, enquanto ainda vivíamos uma coisa-inominável. E isso era a causa do fim do nosso afeto.

Nossos relacionamentos em geral durava já há mais tempo que o novo namoro, mesmo assim, acabavam, por ser de alguma forma menos especial. Veja que é um padrão bem evidente, repetido tantas vezes que passei a observá-lo para ter mais propriedade da pedra que me atinge.

O que mudava no fim dessa relação não era o relacionamento relâmpago que eles engatavam ( e que eles em geral não viviam por longo tempo), mas o motivo desse relacionamento começar: uma toalha deixada na casa dele depois de três meses de relação, uma escova de dente esquecida com a pasta  no chuveiro depois de uns 6 meses, uma camisola azul deixada debaixo do travesseiro depois de três noites que você ficou porque ele pediu mais um dia 3 noites seguidas estando sete meses ficando, uma trepada sem camisinha sonados de manhã que parecia um passo para uma relação, depois de oito semanas de confuso e não percebido casamento autônomo temporário uma vez por semana. Atos falhos meus que eram sempre o signo de que uma relação de alguma forma pudesse existir entre nós e o fato de termos feito sexo não deixava isso ser só amizade logo, a melhor forma de destruir essa relação era eliminar o sexo.

A desconstrução desses homens me faz pensar que não é porque eles me vêem como uma mulher de alguma forma é não-namorável, aquela que serve pra cama, mas com quem você não passeia de mão dada. Mas porque minha liberdade de alguma forma soa para eles como uma ameaça real a masculinidade deles, sobretudo, se eles bancarem a auto-estima de ser meu companheiro. É muito mais fácil encontrar homens disponíveis a te bancar financeiramente que bancar a autoestima de namorar uma pornógrafa, em geral o que tem essa autoestima, já namoram mulheres incríveis, que não se importam que eles fiquem com você, e que embora você jamais se sinta preterida em suas mãos de fêmeos, você por alguma razão ainda sente o desconforto de não ser a pessoa mais especial, e é isso que te faz sentir sozinha, e escrever a nota do amor número 5.

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Eu poderia lebsianizar, pelo fato de ser bissexual. Mas me apaixono por pessoas, humanxs e calhou de repetir-se eles serem homens cis, héteros, então calhou de repetir este padrão, e aí deu no acaso de perceber que eu estou sofrendo. Eu estou sofrendo porque este lugar de “o um especial”, existe em relações não monogâmicas, porque elas são abertas, mas não poliafetivas. E pelo fato de homens héteros cis não conseguirem por uma razão confusa – que acredito que se confunde com a crise de falta de pertença, e falta de acesso a ficções de apoio que o homem hétero cis caucasiano sofre, a tal C3 H2 – se envolver com mulheres autônomas/empoderadas, sobretudo, quando percebem o risco de se apaixonarem por elas.

Fico pensando o desconforto que essas mulheres, as que são as novas especiais, sentem quando eles a deixam dormindo na cama dele, na casa dele e passam a madrugada conversando comigo. Quando interrompem uma conversa com elas para chamar minha atenção porque estão com ciúmes, repete meu nome em ato falho tentando sequestrar minha atenção nas conversas, e várias outras confusas demonstrações de afetos,ciúmes e ou cuidados que em geral eles não demonstram com as outras amigas, aquelas que são menos especial que eu, que sou menos especial que aquela nova namorada.  Quem inventou a bosta desse conceito especial foi o mesmo corno que inventou a monogamia, não consigo confiar em contratos sociais que vão contra a natureza humana, são tão hipócritas quanto castigos sôfregos.

Começo a pensar que essa berlinda entre a mais especial e a menos especial, um lugar fictício e confuso que tem beijo e sexo, mas não necessariamente a maior parte da atenção daquele instante, seja a única coisa que esse homem acha que têm como território de pseudo controle que ele acha que é necessário que ele tenha. E que embora eles não façam por mal, esse seja um lugar de conforto e pseudo segurança que eles repetem como padrão comportamental pernicioso, para as duas mulheres, a mais especial com direito a exclusividade sexual, mas que não é onde a cabeça dele está, e a menos especial que não merece exclusividade sexual e que por isso eles não estão juntos, mas que ele não consegue de fato deixá-la ir, a menos que ela realmente o faça tirá-la desse banho morno, que ele não havia percebido que ela estava, porque ele  também está. Mas ainda é o homem quem decide se e quando uma relação vai ser especial.

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Saiu na segunda para encontrar com um desses ex casos, desejando mesmo encontrar um outro desses ex casos (que não me sai da cabeça), e acabo entre duas amigas lésbicas que vivem relações em trânsito,  uma delas relação aberta com a pessoa menos especial e a mais especial, a outra delas  uma relação monogâmica com ideal poliafetivo utópico planejado pro futuro, mas sem auto estima e coragem de deixar outros afetos interferirem essa relação. E uma delas me conta que passou – a monogâmica -a noite toda dançando com uma menina, uma longa madrugada, ela então ficou meses intoxicada e inebriada daquele encontro, mas elas não ficaram, porque ela é monogâmica e a outra me conta que contou essa semana pra que é mais especial que está ainda ficando com a menos especial. Conto da minha última experiência como menos especial e como a que não merece monogamia e saímos felizes embriagadas desse encontro libertador, de onde saímos igual entramos presas em conceitos que já não se adequam a relações e relações que já não se adequam aos conceitos, mas como doeu ouvir ele me disse esse sábado talvez nossa reticência_ seja fruto de uma reticência_ real_ porque estou me envolvendo com outra mulher e nosso beijo não vai acontecer…porque depois daquela trepada sem camisinha, eu achava que éramos um território, acho que estava certo e porque éramos ele entrou no padrão… Interpretei a carta ela é a impossibilidade de comer uvas mesmo estando no parreiral…este tarot vai longe.


Extra 

7 de moedas invertido 
(Spoiler do pornoklastia I O segundo livro de filoklastia pornoklasta: O tarot pornoklasta)

“Tinha um chão de areia dourada que ia longe mas não era um deserto, caminhávamos num dia de sol, tinha a sensação de estar sendo observada…uma resistência a chegar ao fim da estrada de areia porque tinha uma parede invisível, mas podíamos ver uma janela que dava pra uma lavoura que havíamos feito juntos e dava pra ver um vilarejo ao longe  tipo a aldeia pára, ai vc tocava meu rosto com a parte detrás das mão com dedo indicador fazendo o contorno do perfil do meu rosto e me olhava bem no olho, ai acordei..”

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