O universo para além do umbigo

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Na minha infância eu tinha um pequeno grupo de melhores amigas, esses grupos em que todas andam juntas e que em meados dos anos noventa sonhavam cada uma em ser uma Spice Girl, às vezes a mesma o que gerava um certo conflito. Elas eram as minhas meninas, mesmo quando nossas personalidades se transformavam em massas amórficas ou destoavam por completo, éramos um grupo unido que acabou se despedaçando ao longo dos anos. Agora com certa idade e clareza para olhar para trás, a nitidez que me salta aos olhos é a de que fomos esfarelando com a grande pressão que ser uma melhor que a outra trouxe.

Uma a uma, em algum lugar, competiu e destoou a ponto de se sentir uma estranha no ninho. Além disso, o tempo, esse grande espaçador de pessoas, se encarregou de transformar horas de risadas bobas no mais monótono silêncio.

(Foto: Anna Mascarenhas)

Ali na minha primeira infância eu aprendi a competir, mas não aprendi a nadar. Era uma criança de pés nos chãos e raramente molhados. Na verdade, não tem cinco anos que pela primeira vez entrei numa piscina e alguém estava lá para me ensinar um pouco da teoria das braçadas, como respirar e sobreviver de um lado ao outro da piscina sem pôr o pé no chão. Se dentro do retângulo azul eu já acreditava que minha única meta era sobreviver, o medo e o respeito pelo mar e as forças da natureza me fizeram ser sempre receosa em até onde ir quando se tratava de ondas e água salgada.

Após o processo de aprender minimamente a sobreviver dentro d’água, uma vontade antiga voltou a falar alto dentro da minha mente: Surfar. O esporte sempre foi um dos meus grandes desejos de juventude podado por conta da inabilidade subaquática, mas agora com tudo ajeitado o ímpeto tentar me equilibrar em cima de uma prancha não era impossível e foi surfando em ondas cibernéticas que encontrei o lugar perfeito para começar: a Longarina.

(Foto: Suellen Nóbrego)

A princípio, achei que a Longarina seria um coletivo de mulheres que facilitariam a vida de quem, apesar da vontade, não possui ou possuía pouca intimidade com pranchas, equilíbrio e o mar. Como já contei aqui tenho o hábito de viajar só e ao longos dos últimos anos, a cada viagem acabo encontrando grupos de mulheres que me fazem refletir cada vez mais a respeito do meu lugar no universo feminino. Não foi diferente dessa vez e os dias na praia, na verdade, foram destinados a um grande mergulho, em mim e nos outros femininos ao meu redor. Uma lembrança viva do que era pertencer a um grupo feminino repleto de personalidades e permitir o riso solto.

(Foto: Suellen Nóbrega)

Há algum tempo venho questionando o meu papel na competição feminina, onde me coloco quando existo enquanto mulher em um meio estritamente feminino. Para onde direciono meus afetos e como os anos se encarregaram de implementar uma mentalidade calcada no que o patriarcado acredita ser o comportamento feminino com seus pares de gênero. A percepção de que por anos fui negligente quanto a empatia nos dilemas femininos e até mesmo o lugar em que acreditei que mulheres devem pertencer no que tange o afeto das outras. Foram nos anos de tentativa de aprovação masculina que aprendi a colocar minhas iguais em papéis fúteis, ou deslocados. Aprendizado que hoje eu percebo ter sido tóxico e machista.

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Apesar do esforço diário na desconstrução do pensamento, é na competição (mesmo naquela que não iniciamos e nos esforçamos em negar) que ainda existe um abismo que precisamos aprender a superar e assim permanecermos realmente unidas, a tal sororidade. O meu primeiro desafio nesta imersão de três dias com a Longarina foi o baque de uma viagem com 30 mulheres desconhecidas, com suas próprias nuances e histórias, um grupo enorme para quem até então sempre experimentou pequenas doses da companhia completa de mulheres. Ali, completamente despida das minhas certezas, me vi desenvolvendo afetos que sempre neguei, sendo acolhida entre minhas iguais e em especial enxergando muito mais de mim nas outras mulheres, fato que sempre recusei. Na dinâmica de externamos nossos medos, ou a vergonha do feminino foi onde me vi plenamente refletida até mesmo na mais diferente que se encontrava lá.

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No fundo do meu ser, ainda tem enraizado um lugar de medo de ser mulher e vergonha de externar minha feminilidade, onde meu arquétipo feminino foi colocado como culpa. E é nele que a competição feminina ainda tem voz, uma voz que a cada dia eu me esforço para silenciar.

(Foto: Suellen Nóbrega)

Em águas mais profundas do que as que cercam a praia de Itamambuca, no litoral norte de São Paulo, foi onde eu e as minhas parceiras de aventura e busca imergimos atrás da nossa psique selvagem, do nosso “eu silenciado” e da cumplicidade. Foi prazeroso e revelador perceber que tenho mais em comum com mulheres com histórias completamente diferentes das minhas do que a maioria dos caras que passei uma vida tentando me adequar para caber na vida deles. Vivenciar sem medo ou cautela a liberdade para dançar, comer, amar e rir, não temer o fracasso quando a plateia ao redor vibra a cada pequena conquista e encontrar olhares orgulhosos a cada conquista foi o diferencial dessa viagem.

Claro que ficar em pé e experimentar o prazer da onda me levando foi maravilhoso, mas a imensa onda de afetividade e solidariedade entre mulheres foi a grande transformação desse fim de semana prolongado.

Uma dica importante para quem está afim desse tipo de mergulho: deixe sua armadura em casa, não se compare com as outras mulheres, ouça elas, não alimente o bichinho da competição feminina dentro de você. Há mais semelhanças do que diferenças.

comentários

  1. Somos casados e temos curiosidade de sair com outras mulheres pra apimentar a relação..

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