O dia em que surtei

o dia em que surtei

Faz dias, semanas que estou tentando escrever esse texto. Sim, eu sou uma pessoa que tem problemas com vulnerabilidade. Eu rejeito antes de ser rejeitada, não confio nas pessoas o suficiente para correr o risco de me expor mas ao mesmo tempo quero ser acolhida.
Paradoxos né?

No meio de um surto, uma amiga me mandou o vídeo da Brené Brown (SUPER recomendo) que trata exatamente da poder da vulnerabilidade.

Ela é pesquisadora e passou uma década estudando as conexões humanas e como os sentimentos e reações influenciam no comportamento das pessoas. Ela partiu da premissa que seres humanos precisam de conexões e que a vergonha é nosso medo da desconexão. Tipo: “há algo em mim que se as pessoas virem ou souberem, vai fazer com que eu não mereça estar conectada, não serei incluída, não me sentirei pertencente”.  A vergonha está embasada no sentimento de que não somos suficientes, sentimento esse que todos conhecemos e que pode afetar diversas áreas da nossa vida: não sou inteligente o suficiente, bonita o suficiente, bem sucedida, amada, competente, instruída, blá blá blá – o suficiente. E a base para todos esses sentimentos é uma excruciante vulnerabilidade.

Brené então conta que estava determinada a vencer a vulnerabilidade. Após sete anos de incansável pesquisa, entrevistas, grupos focais e milhares de relatos e dados em busca de padrões e variáveis, identificou que as pessoas que viviam com um sentimento pleno de amor e pertencimento eram as que tinham a coragem de serem imperfeitas – e de se mostrarem imperfeitas. Isso fazia com que essas pessoas fossem mais gentis consigo mesmas e com os outros. Eles estavam dispostos a abrir mão de serem as pessoas que eles gostariam de ser para ser o que realmente eram. E se permitiam ser vistos dessa forma. Ou seja, entendeu que para conseguimos conexões humanas precisamos nos deixar ser vistos como realmente somos e isso nos deixa o que? vulneráveis.

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Nesse caso, a vulnerabilidade, que era seu arqui-inimigo gerador do medo e da vergonha voltou como a fonte da conexão, do pertencimento e da autenticidade.
Ela fez o que?
Surtou (tamo juntas Brené)
Parou a pesquisa e foi fazer terapia.

E me identifico muito quando ela falou, sobre abraçar a vulnerabilidade:

  1. a) eu não sou assim
  2. b) eu nem ando com pessoas assim

Mas durante um ano de terapia ela aparentemente se rendeu e declarou que não há como bloquearmos os sentimentos ruins e desconfortáveis (medo, vergonha, etc) sem nos privarmos dos sentimentos bons como alegria, amor e gratidão. E que na nossa incapacidade de lidar com o incerto e imperfeito, colocamos toda nossa vida em caixinhas de definições prontas e imagens falsas, para que elas pareçam ser certas e livres de falhas. Assim conseguimos lidar com elas sem desconforto.  E isso é um problema, porque nada é certo na vida e nós não somos perfeitos. Então enquanto não aprendermos a amar e dar valor ao indefinito e imperfeito não conseguiremos nos sentir pertencentes e merecedores e plenos e livres e todas essas coisas boas que nós o que? Queremos!

Isso significa que para alcançar conexões precisamos permitir que nos vejam de forma imperfeita, o que nos torna vulneráveis. Ou seja, bora abraçar a vulnerabilidade, entendendo que ela é necessária.  Até porque a verdade é que não tem jeito amores, porque se nos fechamos e bloqueamos os sentimentos bons nos sentimos infelizes e sem significado na vida, o que nos traz de volta aonde? Exatamente, ao sentimento de estarmos carentes e vulneráveis.

Abraçar a vulnerabilidade pode ser dizer “eu te amo” primeiro, se colocar de forma pública num projeto que pode não dar certo, investir em uma empreitada ou numa relação sem garantias, esse tipo de coisa.
Isso soa o que? Horrível
Aterrorizante.

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Mas vamos lá: umas semanas atrás eu surtei. Do tipo transbordou o copo sabe? Comecei a me sentir vulnerável, me expus, falei coisas que não queria ter falado, disse coisas da minha vida pra quem não queria ter dito, enfim, adeus dignidade, o combo completo. E me odiei por isso.
Tanto que uma amiga que me conhece bem me disse: você está com muito mais raiva de ter se exposto do que da coisa não ter dado certo não tá?
E eu disse: claro que sim. Óbvio, isso nem é uma questão.

Mas tentando tirar alguma lição disso tudo (perder a dignidade tem que ter valido alguma coisa né gente) vi que o que doía tanto era exatamente da pessoa ter me visto como eu realmente estava naquele momento (um caos) ao invés de ver a imagem de mim mesma que eu gostaria de apresentar. E isso nos traz vergonha, que é exatamente o medo da desconexão.

Mas se passar vergonha é o preço a pagar pra conseguir lidar melhor com nossos sentimentos e ter uma vida mais plena, acho que a gente pode considerar essa possibilidade né não? Pra mim, de cara melhorou minha arrogância e o julgamento que eu tinha das pessoas que se abrem e expressam seus sentimentos de forma mais intensa. É preciso muita coragem e hombridade pra bancar se abrir sobre o que estamos sentindo. Transparência e honestidade com nossos sentimentos são coisas que passei a admirar.
Como capricorniana com aquário que sou, eu era a que dizia: corra dessa pessoa!
E agora – a vida né amores, sempre fazendo a gente cuspir na testa-  eu fui essa pessoa.

E eu não sou esse tipo de pessoa.
Ou, vai que, agora sou né.
E quer saber, foda-se.
Tacar o foda-se pra como o outro está nos vendo, na verdade, é a melhor das terapias.

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