O dia em que participei de um workshop de ejaculação feminina

O dia em que participei de um workshop de ejaculação feminina

Foram três sábados escaldantes de um outono atrasado no quarto andar do Edifício Bertolli, vizinho ao Martinelli, na Avenida São João, centro de São Paulo.

No primeiro dia, eu e um garoto trans, sem contato com a organizadora do curso, esperávamos que algum instinto telepático fizesse alguém abrir a porta, que não dispunha de uma campainha operante. Mesmo com remota esperança, esperávamos. Imersos e perdidos num sambão atordoador que acontecia no boteco ao lado.

Enfim, graças à saída de uma colorida artista espanhola, entramos no prédio dos anos vinte. Depois de uma simpática confusão linguística, encontramos, no último andar, a sala do Estúdio Lâmina onde nos esperava Sue Nhamandu, filósofa e performer post porn. Ao seu redor, aconchegados sob a calmaria preguiçosa de uma luz rosa antigo, meus colegas do curso. Um homem hétero de colete de alfaiataria e rabo de cavalo; uma artista de sorriso enigmático que bordava em movimentos lentos e delicados; um homem gay de Curitiba e uma moça colorida de perna bronzeada e lustrosa, com rabo de cavalo adornado em penas.

Fomos recebidas por Sue com um abraço aliviado. Confortável, vestida só com um macacão de algodão, ela nos ofereceu chá, água aromatizada e cigarrinhos de kumbayá. O resquício de samba que invadia as janelas foi logo abafado por um residente que praticava piano no outro canto da sala.

Sem muitos conhecimentos sobre filosofia, além daqueles parcos conceitos absorvidos durante o primeiro ano de Relações Internacionais, acomodei-me em silêncio, ansiosa para percorrer a jornada de formação Pornoklasta. Não dispunha de muito repertório para entender do que se tratava o título do curso: Pornoklastia – Quem tem Medo de Foucault? Inscrevi-me porque estava num momento em que tudo que carregava o sufixo pornô atraía meu interesse intelecutal. A única parte que ficou clara é que tínhamos que levar luvas cirúrgicas e KY. A descrição curso sugeria o uso de vibradores e dildos. Na época, andava meio tecnologicamente desatualizada, contando com a ajuda exclusiva dos meus dedos. Tive que ignorar essa última recomendação.

Com um notebook sobre suas pernas cruzadas, Sue iniciou seu trajeto pela filosofia para nos ajudar a desconstruir conceitos sobre gênero e sexualidade por meio da percepção do corpo. Escolheu começar pelas doutrinas não escritas de Platão, para ilustrar que o aprendizado verdadeiro, profundo e individual só é possível depois da experiência vivida, de muita conversa e convivência. Essa seria a metodologia fundamental do seu curso. A troca intensa de conceitos sociais, políticos e filosóficos re-significaria nosso olhar sobre as demonstrações práticas da ejaculação. A ejaculação com um peso político e não erótico.

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E assim, durante dois sábados, Sue articulou conversas deliciosas sobre os conceitos de sexualidade e poder em Foucault; desconstruiu noções de gênero por meio de Judith Butler e transformou as práticas e performances sexuais com Wittig e Paul Preciado. A trajetória conceitual de Sue era reforçada pelos relatos pessoais dos colegas de curso, que viviam contextos de gênero e orientação sexual distintos do meu. Mestre em filosofia, a Sue não se colocava no topo de uma torre de Babel de intelecto acadêmico. Ela esclarecia minhas elementares dúvidas e ilustrava seus ensinamentos com exemplos muito próximos do meu universo, como sofrências amorosas ao som de Cher.

A troca de ideias tão visíveis no nosso corpo e nos nossos relacionamentos – permitiu que eu adquirisse uma consciência política que anos de escola regular não foram capazes de despertar. Estava clara, agora, a articulação de instrumentos culturais, políticos e linguísticos para amarrar-nos em uma determinada lógica que atende aos interesses de grupos de poder. Na nossa sociedade, tais forças nos organizariam dentro de uma ordem hétero-capitalista. O pornô mainstream, o chá de lingerie na despedida de solteira, a depilação a laser, o silicone, o bronzeamento artificial. Uma lógica que nos diz que devemos consumir o gozo, e de que forma. A imposição casal margarina invade nossa vida sexual.

A ciência, presumidamente neutra e intocável, estaria impregnada de valores patriarcais e hetero capitalistas. Tudo o que mostra para uma mulher que ela é um ser sexualmente poderoso e, portanto, livre, é ignorado pela ciência. Se o clitóris só deu as caras nos livros de anatomia nos anos oitenta, imagine o que dirá a ciência sobre nossa capacidade de ejacular? O mínimo possível. Ejacular, um ato metaforicamente tão macho, expressão despachada do prazer sexual, não é coisa de mulher.

Quantas vezes já não ouvi do meu primeiro namorado que squirtting era xixi? Por quantas vezes tentei me convencer de que se tratasse apenas de lubrificação? Um mero exagero enganoso de filme pornô. Pois Sue, munida de esquemas de anatomia e argumentos contra científicos provou por A mais Bê que dispomos de uma glândula chamada skene que desempenha função semelhante à da próstata. Mostrou também dados que provavam que a composição do líquido liberado na ejaculação não contém urina, mas sim elementos contidos nos líquidos prostáticos liberados pelo homem.

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Rolou muita conversa até ficarmos pelados no terceiro sábado. A relação com aquele espaço e com aquelas pessoas já era outra. O corpo já era encarado com mais naturalidade. Mesmo assim, me despir na frente de todos não foi nada fácil. Eram séculos e séculos de vergonha e culpa entupindo os meus poros. Eu percebi que tinha medo de ser acusada de seduzir alguém e tive que fazer um grande esforço para ficar à vontade com minha nudez.

Foi então que, hackeando a mesma linguagem científica que por séculos nos aprisionou, Sue nos mostrou com onde ficavam a próstata masculina e a tal da glândula skene com a ajuda de muita didática, desenhos anatômicos, luvas cirúrgicas e KY. Vestindo uma luva, senti sua glândula, uma espécie de membrana próxima onde acreditava ficar o ponto G. Em seguida, ela falou em detalhes sobre sua técnica preferida para ejacular. Avisou-nos que era difícil mesmo e que no início só conseguia com a ajuda de um bophe. Hoje Sue executa performances em que ejacula sozinha sobre uma aquarela em apresentações de arte performática, na frente de dezenas entusiastas da arte.

Suas recomendações para ejacular incluíam hidratar-se e urinar-se antes do ato, dois orgasmos clitorianos seguidos e, finalmente, o estímulo consecutivo da próstata e do clitóris. Um vibrador ovinho ajudaria bastante. Com a ajuda de Sue – e do ovinho -, uma das participantes do curso conseguiu ejacular, ali mesmo na sala de aula, após uns vinte minutos. Visivelmente espantada, ela apenas relatou que toda a mulher precisava sentir aquilo.

Eu, ainda cheia de medos, pedi que Sue me mostrasse como tocar a glândula e tentei render-me aos seus estímulos. Confesso que não consegui entregar-me toda ali, mas para mim, aquilo era apenas um detalhe perto da grandiosidade da experiência corporal e intelectual que vivemos até aquele ponto.

Formada como pornoklasta, caminhei para a casa no quase escuro das seis da tarde, quando o sambão já dera lugar ao Dub da São João.

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