O Buraco é mais embaixo

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O sol rachante fazia sua língua se contorcer de sede, ao mesmo tempo em que o suor pulava para fora do corpo, aflito. Havia ensaiado aquela fala tantas vezes, e agora elas se agarravam com força à sua garganta, como se a vida dependesse disso.

Ele não notou nada. Nunca observou a filha de verdade, nunca a deixou terminar uma frase sem interrompê-la com uma pergunta qualquer sobre qualquer coisa, não importasse quão grande fosse a necessidade dela de ser ouvida.

– Eu fui violentada – disse, finalmente, e a aquelas palavras saíram de sua boca como se parisse trigêmeos de uma única vez.

– Isso é normal, acontece com muita gente – respondeu o pai, levantando os ombros, torcendo o canto da boca, com certo deboche e satisfação.

Esta cena que acabei de descrever a você pode parecer absurda, mas aconteceu comigo aos 17 anos, quando decidi contar ao meu pai que havia sido estuprada dos 06 aos 13 anos. Ele era minha esperança de justiça, mas foi uma grande decepção.

Essa decepção se aprofundou quando, 12 anos depois, peguei o computador dele emprestado e encontrei uma série de vídeos organizados da seguinte maneira: tirando a virgindade de meninas de 11,12 e 13 anos.

Não pude ver o rosto do agressor, não tinha certeza se era meu pai, pois a câmera só mostrava o rosto da menina. Em milésimos de segundos viajei no tempo e resgatei uma lembrança assustadora: a noite em que meu pai me abusou. Ou tinha sido meu tio? Explico.

Meu tio é muito parecido com meu pai. Lembro de confundí-los quando era criança. Nunca sabia quem era quem. Naquela noite, eu dormia sozinha no quarto da minha avó e abri os olhos, meio tonta, sentindo alguém me chupar. Eu tinha 13 anos. Vi aqueles olhos arregalados e o mesmo sorriso debochado no canto da boca dizer: relaxa, filha, só estou te fazendo uma massagem. E fim. Não lembro mais de nada.

Meu cérebro fez outra viagem no tempo e resgatou uma série de sensações desconfortáveis que eu tinha perto do meu pai. Por que raios eu tinha tanto asco dele? Por que raios eu tinha que me esforçar tanto para estar perto dele? Por que raios eu ficava tão tensa quando ele chegava perto? Todas essas lembranças e questionamentos encheram minha mente de uma maneira inacreditável. Precisava compartilhar com alguém.

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Contei à minha mãe, que depois de muito esforço, lembrou-se de uma vez pegar meu pai me questionando sobre a minha menstruação:

– Suas regras vieram, filha? Desceu? Desceu mesmo?
– Veio, pai.

Não lembro de nada disso, definitivamente. Minha terapeuta acredita que ele poderia me dopar, já que as vagas lembranças que tenho são de estar quase dormindo, entrando em estado de inconsciência. Foi assim que decidi encarar o velho e falar tudo o que eu tinha visto no computador dele.

A única coisa que ele conseguiu me responder foi que o computador já tinha vindo com aqueles vídeos baixados. Que não tinha sido ele. Negou tudo, obviamente. Mas não é sobre meu pai que eu quero falar. Quer dizer, não deixa de ser sobre ele. Quero falar sobre a postura da família quando vítimas de abuso buscam ajuda ou decidem romper com o silêncio.

Tenho ouvido muitas meninas que sofreram abuso e não tem uma sequer que tenha contado para a mãe ou para o pai, que estes tenham feito alguma coisa para ajudá-las. No máximo, a mãe pega no flagra, leva a filha à força para a delegacia, onde é ridicularizada pelos policiais e delegados:

– Mas o que você foi fazer lá?

Como se houvesse desculpa para o estupro. Neste caso em específico, quando a vítima vai à juízo obrigada pela mãe, ainda escuta um advogado de defesa depreciar sua dignidade, tentando lhe dar uma coroa de prostituição que não lhe cabe. Ridículo!

Cada vez que escuto outra e outra história, percebo como as famílias guardam podres segredos, como uma das meninas do grupo, que foi violentada pelo padrasto por dois anos, acabou engravidando e a mãe a expulsou de casa por ter seduzido o seu marido. Uma menina de 14 anos!

Por isso tremo na base quando uma menina me pergunta se pode contar o que aconteceu para alguém da família. É um dilema pra mim. Devo contar? Eu queria poder responder, sim! Conta sim pra sua mãe, ela é a sua mãe, vai te defender, te proteger, não vai te culpar, vai te respeitar. Mas não, não é isso o que acontece.

Pelo contrário:

“se você denunciar, quem vai nos sustentar? Onde vamos morar? O que será de nós?” Não bastasse a tortura física, a família vem com a tortura psicológica. Começo a perceber que o abuso sexual não se restringe apenas à vítima e ao agressor. É um problema familiar, e portanto, cultural e social. O buraco é bem mais embaixo.

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O abuso poderia ter um fim se o machismo não fosse tão opressor e uma menina violentada pudesse contar o que lhe aconteceu sem sentir culpa ou vergonha, tendo a certeza que seria ouvida, não julgada. O abuso poderia ter um fim se as mulheres não fossem reduzidas a objetos de prazer, se o homem não fosse o centro da sociedade, que deve saciar suas necessidades a bel prazer sem qualquer culpa ou responsabilidade. Afinal, ele é homem, né? Tadinho.

Mulheres ainda estão em desvantagem e o estupro é sim um sintoma do machismo, que também contaminou os princípios familiares. O que faz uma mãe acreditar que ao denunciar o marido que estuprou sua filha, a fará passar por problemas financeiros? Quem a fez acreditar não ser capaz de ela mesma conseguir um trabalho e se sustentar sozinha? Assim, prefere calar e tirar a filha de casa do que se expor às intempéries da vida.

Infelizmente, não consigo ver solução para o abuso a curto prazo. Porque ele mexe na estrutura cultural e reflete dentro das casas, na família, no cerne do que deveria ser um lar. E a nossa justiça não facilita. Outro dia, eu tive a ideia de criar uma plataforma onde mulheres violentadas poderiam subir a foto de seus abusadores, e assim criaríamos uma rede de imagens mapeada onde outras mulheres poderiam reconhecer outros abusadores e prevenir abusos. Mas não se pode divulgar foto de abusadores porque fere seu direito de imagem. Acredita nisso?

Sabe o que ouvi em resposta disso? O seguinte: mas vai que uma louca vingativa sobe a foto do namorado ou alguém qualquer só pra se vingar?

Bingo! Outro sintoma do machismo. É impressionante como somos condicionadas a proteger o homem, mesmo que um abusador, e a desconfiar das mulheres. Parece que nossa palavra não tem valor. É impressionante. Mas não me rendi! Sigo pensando em levar para essas meninas uma solução e se você estiver a fim de ajudar, de se voluntariar ou simplesmente de dar ideias, envie e-mail para julianarsduarte@gmail.com

Fico por aqui,

Juliana R. S. Duarte

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