O Amor e o Cuidar do Outro

O Amor e o Cuidar do Outro
“Nossa recuperação está no ato e na arte de amar.” 
Bell Hooks

“Aquele que não ama ainda está morto”.
Evangelho segundo São João

“Ache o que você ama e deixe isso te matar.”
Charles Bukowski

O sujeito neoliberal, é um sujeito de interesse, na medida que sua subjetividade é externa a si, ele não cuida de si porque não sabe, quem não cuida de si, pouco sabe, portanto, sobre como cuidar do outro, a crise das relações é bem simples. É uma equação. Nisso se desenvolvem aquilo que tenho chamado de as não-relações.

Acho curioso como a gente hoje em dia, balzaquiana sente medo toda vez que sente vontade de dar boa noite pra uma foda-crush, ser moderna no fundo é fingir-que-não-se-importa com as pessoas o suficiente pra elas não fugirem do medo de nós (leia “se” projetado) magoar. Então para as mulheres que praticam às vezes a hetero-relação, responsabilidade afetiva em geral é ser responsável pelos seus afetos, o do outro e o do outro com relação a você e de você em relação com o afeto do outro em relação a você…E isso é bem desgastante a ocitocina sintética e camisetas suadas bem embaladas e um Hitachi dão menos trabalho que relações afetivas.

Não importa o que existe entre uma mulher e um homem, se ela usa a palavra “relação” para se referir a isso todos, todos os boy dão uma surtada, mesmo que sejam mais de um e saibam um do outro. No fundo tá todo mundo na normopatia e no medo de comprometimento com a responsabilidade-afetiva de maneira tão grande e pós capitalista moderna-líquida que no fundo as relações são todas não-relações, umas monogâmicas hipócritas, outras só hipócritas. Toda vez que aparece algo que soa diferente, também tenho sentido medo. A segunda coisa que mais acontece nos lab de siririca  é descobrirmos que estamos ficando misândricas e que preferimos ser lésbicas, isso tem me preocupado.

Já citei, acredito, ao longo desta tese, parafraseando Carl Sagan que, em um de seus livros, provavelmente Os Dragões do Éden, se bem me lembro, que diz que o amor é um fenômeno mamífero, vinculado ao cuidado que a cria mamífera exige, em comparação a espécies não mamíferas, que difere em tempo e qualidade. Uma qualidade vista como evolução do cérebro para Sagan .

Queria abrir um pequeno parágrafo especulativo sobre a possibilidade que Joseph Chilton Pearce nos evidencia de aquilo que temos chamado de cultura, essa antropotecnologia, cuja a única que respeitamos como saber é eurocêntrica, ou americanizada, estar lentamente trazendo uma interrupção evolutiva dentro do quadro cerebral humano. Essa lentidão no nosso processo evolutivo é provavelmente distinta em mulheres, cujo o contingente genético tem sido gerido de maneira a cuidar do outro, e provavelmente no caso daquelas mulheres de quem essa tecnologia foi retirada a força isso se conecte a muitos outros afetos.

O que estou dizendo é que ao longo da história da humanidade, dos processos escravagistas, e da misoginia patriarcal, apenas alguns grupos se mantiveram próximos a tecnologia do cuidado. E nesse processo as mulheres brancas que tanto reclamam de sua condição de do lar, de dona de casa, gozaram do privilégio de não ter suas crias retiradas de si, como se fosse um outro “ser movente” qualquer que pertence ao homem. Ou seja, apenas um pequeno grupo de mulheres negras, que são vistas hoje como cuidadoras naturais, pelo crescimento do trabalho doméstico, do feminismo de herança sufragista que praticamos, podia criar seus filhos e de seus patrões, como nos mostra Angela Davis, as mulheres negras trabalhavam no campo, tal qual homens negros.  

Existem estudos  que revelam que o sofrimento passa  maior propensabilidade genética e epigenética ao stress nos filhos de vítimas de situações como holocausto, e evidentemente , portanto, escravatura, e em guerra civil como palestinos e indígenas. Fico pensando quais os efeitos do patriarcado a longo prazo na formação genética da mulher cafuza em termos de aprimoramento da tecnologia da empatia? Porque na mulher negra o abuso era garantia do útero como aparelho reprodutor de mercadoria ser-movente, se sofreram mais e muito, e possuem certamente mais propensão para sofrer, possuem igualmente tecnologia da resiliência que as torna mais fortes, resistentes, sagazes, capazes de encontrar novas soluções. Enfim é possível especular que a inteligências de mulheres cafuzas seja mais complexa no desenvolvimento da empatia, considerada um superpoder sense8.
Segundo o estudo, os filhos de pais que sofrem com o transtorno de estresse pós-traumático são “provavelmente mais propensos à depressão”, enquanto que o efeito contrário parece acontecer nos filhos de mães que sofrem do mesmo problema.

 Outra coisa que queria especular é a possibilidade de a famosa hospitalidade brasileira, e o alto preço dos passaportes brasileiros no mercado paralelo estejam vinculados pelo hormônio ocitocina. A multietnicidade que compõem a mestices do povo brasileiro, permite que a criança brasileira em sua primeira infância quando ainda produz altos níveis de ocitocina mamando na mãe, conviva com as mais variadas faces humanas, pode ser a razão de sermos um povo conhecido pela tolerância a pluralidade. Nossa antropofagia influi nossa forma de amar, reduz nossa xenofobia. Mesmo nossa mídia contando com tão pouca diversidade cultural.

“we tested the propensity of 183 Caucasian participants to make donations to people in need, half of whom were refugees (outgroup) and half of whom were natives (ingroup). Participants scoring low on xenophobic attitudes exhibited an altruistic preference for the outgroup, which further increased after nasal delivery of the neuropeptide oxytocin. In contrast, participants with higher levels of xenophobia generally failed to exhibit enhanced altruism toward the outgroup. This tendency was only countered by pairing oxytocin with peer-derived altruistic norms, resulting in a 74% increase in refugee-directed donations. Collectively, these findings reveal the underlying sociobiological conditions associated with outgroup-directed altruism by showing that charitable social cues co-occurring with enhanced activity of the oxytocin system reduce the effects of xenophobia by facilitating prosocial behavior toward refugees.”

Segundo Regina Navarro o registro de amor mais antigo que os humanos possui data de 35 mil anos atrás, um corpo de mulher que aparentemente sofreu um acidente na juventude impossibilitando-a assim de comer alimentos sólidos e andar, foi encontrado enterrado com ornamentos, tendo morrido por volta dos 35 anos, passando assim boa parte de sua vida dependendo do cuidado de outros para sobreviver, e ainda assim enterrado com cuidados. Comer ou enterrar mortos são aparentemente os traços mais antigos do amor entre humanos, sem falar na lactação.

Bell Hooks fala de uma amor revolucionário, uma prática de liberdade.

Enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação. Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação – imperialismo, sexismo, racismo, classismo.

Para Bell notamos os pontos cegos quando nossos cuidados se alastram em olhar a dominação com olhos empáticos, e esse tipo de expansão do cuidado está vinculada a uma ética do amor. A citação de Bell de Luther King, falando do amor como bem supremo, uma terminologia platônica, que Bell se apropria para falar de um amor auto-revolucionário, diluidor do auto-fascismo que tortura o corpo falado cuja verdade vem de fora, e o narra imerecedor de amor, o corpo da mulher negra. Amor não é um sistema de trocas ao redor do desejo, isso  é economia erótica, assim como cuidado de si não se resume a banhos de espuma, é uma prática política de auto-conhecimento ético que possibilita a criação de estéticas de existência que operam como rotas de fuga a governamentalidade do estado.

“Não fazes favor nenhum em gostar de alguém, nem eu nem eu nem eu, 
quem inventou o amor não fui eu não fui eu não fui eu não fui eu nem ninguém” 
Nem Eu - Nana Caymmi

O amor como prática de liberdade, está intimamente ligado a ética do cuidado de si como prática de liberdade, a consciência de cuidar bem de si para não ser tirano de si nem do outro, para se guiar no caminho da parresia rumo o bem supremo do Uno, a floresta viva de Omama.

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