Na grelha

Na grelha

Pensei muito em sobre como abordar o tema da masturbação. Com apenas algumas noções de psicologia e fisiologia, autoridade mesmo eu só tenho para contar da minha própria experiência já que, ao longo da minha vida, mantive uma relação até que saudável com a masturbação. Portanto, acredito que compartilhá-la é o melhor que tenho a oferecer para mulheres e garotas que buscam entender melhor o que acontece com seu corpo.

Comecei com onze anos. Não lembro bem o que me levou a botar a mão ali. Questão de filosofar sobre o ovo e a galinha. A pornografia criou curiosidade, ou minha curiosidade me levou a folhear revistinhas pornográficas encontradas acidentalmente na casa de parentes? Não sei. Mas quem me apresentou especificamente ao clitóris, ah, isso eu sei. Foi a Playboy que dava sopa no lavabo. Lá, havia uma reportagem sobre profissionais de telesexo, eterno extinto 0900. Que maravilha de reportagem sobre comportamento sexual, eu diria hoje sobre as transcrições das conversas entre profissionais – homens e mulheres – e clientes. Em uma delas, uma mulher corajosa busca ajuda profissional para sanar a ausência e a incompetência do marido na cama. Do outro lado da linha, um profissional do sexo masculino conduzia a cliente por momentos íntimos de carícias e muito tesão até que, ele propunha, abriria sua perna e chuparia seu grelhinho. Buguei. Tive de conferir que grelho era esse que botou a cliente num transe.

Nas aulas de educação sexual oferecidas durante a quarta-série no colégio de freiras, ou mesmo durante algumas palestras aterrorizantes durante o colegial, se falava muito sobre o sistema reprodutor humano, e muito sobre como engravidávamos, e muito sobre como contraíamos temíveis doenças sexualmente transmissíveis – cada uma delas descrita com riqueza barroca de detalhes. Ninguém nunca sequer mencionou o que era masturbação. E eu lá, já me matando com o dedo em banhos intermináveis. Era gostoso e eu montava toda uma situação para aquilo acontecer, mesmo batendo aquela sensação de culpa cristã depois.

Assim, nessa relação conflituosa entre sagrado e profano, convivemos eu e minha siririca até eu começar a dar uns beijinhos por aí. A partir daí, siriricar já não pesava tanto na minha consciência – já não tão católica. Aquele ato agora me ajudava a me sentir segura e mais confiante. Nerd que só, aquela era a forma de me fantasiar junto aos garotos por quem mantinha paixões quase platônicas enquanto me mantinha esquisita atrás dos livros.

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Ainda no Ensino Médio, a minha maior paixão platônica até então finalmente se materializou e o tesão represado também foi liberado em doses expressivas de mãos e chupadas e roçadas, até que pá, rolou a penetração. Era muita dopamina rolando no cérebro e fazendo eu querer mais. E eu pedia, e buscava. Mas aquela explosão toda não acontecia quando estava acompanhada. Ele não sabia me estimular DAQUELE jeito. E eu também não ousava botar meu dedinho lá durante nossas transas. Afinal, uma coisa era uma coisa, outra coisa era outra coisa. Sexo e masturbação juntos? Não. Eu mantinha a siririca escondida.

Demorou três anos para que masturbação e transa se sobrepusessem. Foi com o primeiro cara mais velho que eu peguei. Mais desenrolado, sugeriu que assistíssemos um pornô na hora agá. Opa, pornô? Eu já era fã. No canal de adultos da TV, rolava uma daquelas cenas lésbicas mainstream com paleta de nudes e rosados. E eu, já me achando a subversiva, não tive dúvida, bati uma para mim enquanto ele me comia de quatro. Pá. OR-GAS-MO. GO-ZO. Com todas as letras, sílabas e fonemas. Não podia acreditar. Era daquilo mesmo que eu gostava.

Não, não foi um oral cheio de predicados, muito menos a neca grossa, nem a boa desenvoltura rebolatória do meu parceiro. O que, no meu caso, lacrou meu primeiro orgasmo durante uma transa, foram anos de experiência masturbatória prática metabolizada no meu corpo.

Eu fico imaginando se é possível que mulheres que nunca sequer se tocaram cheguem ao orgasmo daquele jeito tosco retratado em alguns filmes: e, de repente, OH! Fez-se a luz. Tá, terapeutas mais ou menos holísticos estão aí para ajudar a mulherada em dificuldade, mas quantas mulheres brasileiras têm acesso financeiro ou mesmo se permitem buscar esse tipo de ajuda?

Não é à toa que 23% de uma amostragem significativa de brasileiras relatou nunca ter gozado, enquanto que apenas 2 a 3% dos homens afirmaram viver tal infortúnio. A pesquisa do ProSex (Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da USP) capitaneada pela Carmita Abdo traz um segundo dado que pode trazer bastante relação lógica com o primeiro. Quase 40% das mulheres entrevistadas disseram que não têm o hábito de bater uma siririca, enquanto apenas 19,5% dos homens assumem que não curtir uma punhetinha.

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Quando olho para esses dados, tenho cada vez certeza de que vale à pena buscar uma relação saudável com a masturbação. Como qualquer hábito saudável, a masturbação cria uma relação positiva com sua sexualidade. Além de nos sentirmos mais à vontade com nosso corpo e de sacarmos o que nos dá prazer, os benefícios fisiológicos são numerosos graças à quantidade brutal de hormônios que promovem o bem-estar e o relaxamento. É cólica menstrual que ameniza, é ocitocina prá danar que combate a depressão, é grande parte do nosso cérebro que desliga e nos coloca a gente num transe, nos fazendo perder a noção de tempo e espaço neste momento sombrio e estressante em que vivemos. Um portal para um mundo paralelo de unicórnios saltitantes. Uma siririca a day keeps the doctor away.

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Então, não se sinta obrigada, eu sei que você pode estar cansada ou sem muita motivação. Ou pior, você pode achar que se masturbar tanto quanto você tem vontade não faz bem para sua vida sexual afetiva. Muito pelo contrário, sentir prazer pode te ajudar a se sentir mais forte e mais livre. Há mesmo quem diga que manter uma frequência siriricatória saudável funciona como uma ginástica. Masturbar-se com frequência manteria as glândulas responsáveis pela lubrificação mais ativas, facilitando a resposta da nossa vagina à estímulos sexuais. XUÁ. Sem falar que, pra gente se masturbar sozinha, precisamos buscar na nossa memória, ou num pornozinho, ou em imagens, ou em gifs eróticos, um reportório erótico que dê aquele pinicar inicial. E quanto mais repertório erótico temos no nosso HD, maiores são as chances de pensarmos em sexo.

Então dá uma chance a essa incrível sensação de bem estar. Personal trainer, alimento sem glúten, restrição à lactose. Tudo isso você já faz, neam? Vai lá que a masturbação pode ser até mais eficiente para construir um ciclo virtuoso – e poderoso – entre seu corpo, você, seus relacionamentos e sua vida.

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