Na boa, ser mãe é um saco

Na boa, ser mãe é um saco

Esses dias me peguei reproduzindo machismo. E dos mais escrotos. Foi quando escrevi um puta textão no Facebook (que clichê) sobre como minha mãe era egoísta, narcisista.

Daí parei uns dias pra pensar, e conclui o óbvio: ser mãe é um saco! O discurso social nos fez acreditar que ter filho é algo divino, um dom de deus, que mães devem ser incríveis e maravilhosas, que a maternidade é toda florida, blá blá, Whiskas sachê.

Somos cruelmente julgadas se falarmos que estar grávida é um porre, que muda nosso corpo, que infla nossos seios ao ponto de pedrá-los, que nossas pernas incham, que nosso humor fica uma zona, que enjoamos ao cheiro do nosso perfume preferido. Ai de nós querer expulsar essa criaturinha do nosso corpo sem pensar duas vezes! Ai de nós! Crueis assassinas!

O machismo nos roubou não apenas o poder sobre os nossos corpos, mas nossa liberdade de manifestar nossa opinião sobre o que acontece antes, durante e depois da gravidez. Não podemos falar, é pecado!

Pecado é uma jovem de 16 anos ser obrigada a carregar no ventre uma criança que ela não quer, e nem tem condições financeiras e emocionais para criar esta criança. Pecado é ela ter que se virar sozinha (porque o pai pode tirar o dele da reta de boa, ele é homem, né?) para dar tudo à filha, mesmo que esse tudo, a pirralha não reconheça, e anos depois poste no Facebook que sua mãe é egoísta e narcisista.

Óbvio que fiz uma ligação de vídeo na hora pra pedir perdão. Posso ser produto da cultura, mas não preciso ser seu fantoche e reproduzir machismo sem pensar. Minha mãe não foi a mãe perfeita, dessas que tem nesses contos de fada fajutos e na casa do vizinho. Mas o pouco que ela me dava, era o tudo que ela podia me dar. Em sua condição de adolescente solitária, sem os pais, sem o marido, sem estudo, ela fez o que pode, ralou muito e conseguiu me criar.

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Sou grata? Sou, mas nem ela nem eu precisaríamos passar por isso. Quer dizer, Juliana, que você preferia ter sido abortada? É uma questão a se pensar. Quando olho para minha vida, de como minha mãe foi violenta, do quanto fui agredida, dos abusos que sofri dos meus seis aos treze anos de idade por caras diferentes, da síndrome do pânico que tenho que lidar até hoje, das crises de ansiedade, dos problemas financeiros que tive de superar, minha resposta é sim (e aqui entra outra polêmica/tabu que em breve falarei: o direito de morte).

Minha mãe, assim como tantas outras mulheres, foram obrigadas a seguir um caminho que ditaram para elas. Quem disse que ela deveria ser mãe? Quem disse que ela deveria me parir? Por que ela teria que passar por tantas dificuldades para me criar sozinha só porque alguém determinou que aquilo era um dom divino e ela seria uma assassina cruel se dissesse não?

Minha mãe, assim como muitas outras mulheres, não puderam escolher o próprio caminho. Pelo contrário, as fizeram acreditar que dar à luz era legal sem ser. No fundo, elas também sabem que ser mãe é um porre, mas não podem admitir isso nem para si mesmas, até porque foram contagiadas por um discurso muito florido e romântico sobre a maternidade , que horror pensar o contrário.

Sei lá, está na hora de tratar a mulher de maneira real. Está na hora da gravidez ser tratada de maneira verdadeira, da maternidade ser vista como ela é: um puta desafio que nem todo mundo precisa encarar. Principalmente, está na hora das mulheres terem poder de escolher se querem ser mães ou não sem serem apedrejadas por isso, sem nenhum familiar ficar torrando o saco: “mas você tem quase trinta, né, depois disso fica mais difícil”.

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Não precisamos ouvir isso.

Se eu queria ser abortada? Eu disse sim lá em cima, considerando um ponto de vista. Agora te darei outro, aquele onde venço todas as minhas dificuldades, onde driblo as minhas mazelas e me torno mais forte, onde ajudo muitas mulheres a superar o abuso sexual, onde escrevo livros de ficção e outros tantos de poesia, onde ganho prêmios na propaganda e na literatura, onde transformo minha dor virou em amor, e tudo isso vira arte… mas não precisaria virar. Entende? Sou uma exceção.

E não, este não é um discurso suicida. Está mais para um debate filosófico. Precisei passar por tudo isso para marcar o mundo com arte? Para tocar o coração das pessoas? Os frutos que gerei e estou gerando justificam tirar da minha mãe a escolha? Mães narcisistas existiriam se não fossem obrigadas a ter aquele filho? Se não houvesse tanta pressão sobre as mulheres, e se não fossem tratadas como estranhas por se recusarem a ser mães, será que existiriam as vilãs maternais?

Duvido.

Se realmente houvesse opção de não sermos mães sem peso na consciência, se realmente fôssemos respeitadas nesse sentindo e tivéssemos poder sobre nossos corpos, duvido que teríamos milhares de seres reproduzindo seus traumas maternos pelo mundo.

Sem mais delongas,

Juliana R. S. Duarte.

comentários

  1. Seria mais fácil se as pessoas pensassem antes de gozar né! Fazer sexo é tão bom né!! E quem não sabe que isso pode gerar uma gravidez?? Oh quanta inocência!! Abriu as pernas, agora ature as consequências!! E não é pensamento machista não, é a verdade pura na sua cara!!

    • E por que, Marília, só o ato de abrir as pernas deve ser olhado desta maneira que está analisando, e não o ato de meter? Por que não falamos: meteu? agora ature as consequências?

  2. Interessante seu texto, mas o único "porém", que me trouxe um incômodo, é que você analisa somente a interação da mulher com sua 'cria'. O termo correto seria imparcialidade. Pode ser que isso tenha algo haver com seu histórico (eu nem te conheço, mas já sei que teve um pai ausente), ou alguma paranoia criada por adventos do feminismo (nada contra).

    Por ser uma questão de opinião, posso dizer que discordo de você em vários aspectos, e por mais estranho que pareça, eu consigo te entender (de certa forma), mas isso não quer dizer que você está mais próxima da coerência (ninguém está, não é verdade ? rs)

    O peso da paternidade/maternidade, com certeza é algo que demanda certa preparação, então eu acredito que se as coisas não foram muito bem planejadas, a única alternativa pra tentar consertar isso, seria (na pior das hipóteses) arcar com as consequências, daquele ato libidinoso/maravilhoso que é o sexo, sem lamurias ou chorumelas, afinal de contas, o risco foi assumido quando não optaram por uma prevenção.

    Tudo que vem depois é amontoado de frustrações, só que as pessoas esqueceram que a frustração faz parte da essência do ser humano, e é um bocado complicado entendê-las, e transformá-las em algo positivo.

    Eu recomendaria apenas procurar entender a complexidade da existência. O que é a frustração no meio de um universo (até então) infinito de possibilidades, onde o nosso tempo pra interagir com tudo isso é tão curto ?

    Vale apena culpar pessoas / grupos pelas nossas frustrações ? Se sim, até onde isso vai ? Até te consumir por inteiro(a) ?

    No fim das contas, o principal causador de nossas angústias somos nós mesmos. Como é o caso da sua mãe com uma filha (supostamente) indesejada.

    Abraços

    • Eu escrevi um texto, mas o nome saiu errado.

      Percebeu o quanto a existência é uma coisa estranha ?

      O ser que escreve um texto gigante, não sabe escrever o próprio nome. KKKK

    • Oi Luiz, muito bom seu ponto de vista. Gostei muito de como se expressou e muito obrigada por isso. E está perdoado pelo erro ao escrever seu nome. Tenho dois ponto aí, três na verdade. Não discutiremos feminismo, juro, mas seremos práticos, pode ser? Vê o que acha:

      1. Poder decidir abortar um filho tem que ser algo mais prático, não religioso e moral. Se a mulher é o ser que tem útero e carrega dentro dela um filho que é obrigada a ter, ela tem quer a senhora que decide tirá-lo e o sistema de saúde tem que estar preparado para isso. Isso é básico.

      2. Arcar com as consequências de um ato libidinoso é um conceito imaginário e também com uma pitada de religião. Agora vou dar uma de psicóloga, já que também me colocou no divã (ou eu mesma me coloquei porque o lance é falar sem tabu, bora?): em algum momento na história o sexo foi visto como algo imoral e praticá-lo vem recheado de punições inconscientes. Ser obrigado a gerar um filho que não se quer (seja pai, seja mãe), é também auto-punição, eu diria que é até uma punição coletiva e social e, que concordando ou não, os homens passam de raspão nessa. Sejamos francos, né?

      3. Não somos os únicos responsáveis pelas nossas angústias nem pela nossa felicidade e sucesso. Não seja assim tão ingênuo, Luiz, vamos lá, não somos seres assim tão livres. Imagine só que de um conjuntos de forças variáveis agindo sobre o ser Luiz mudasse, você poderia estar agora mesmo de joelho num tapete, virado para MECA e dizendo Alah, Alah, Alah. É o nosso completo humano de superioridade. Nós, Sapiens, achamos que somos grande coisa, mas basta um terremoto pra acabar com tudo, entende? Há muitas variáveis agindo e interferindo em nosso humor, em nossa vida, em nossa educação, no valor do real, na inflação e esse discurso aí, eu sei porque sou publicitária e costumo criá-los, é só humanismo distorcido.

      Beijos, Luiz. Volte sempre.

  3. Haha gostei da resposta, só é um pouco complicado manter uma boa interação, pq através de texto é deveras complicado (convenhamos ...).

    Mas pra pontuar algumas questões onde eu não soube me expressar como deveria, aqui vão alguns adendos/explicações.

    Sobre o seu 1°:

    Eu diria que, 'prático', o aborto já é, porém não é tão usual pois não atingimos aquele "pequeno" objetivo da legalidade. Sob nenhuma hipótese, a questão da escolha pelo aborto deve ser de cunho religioso (a não ser que você queira), ainda mais quando envolve uma sociedade laica, e pessoas com individualidades. Eu concluo que aborto é apenas uma questão moral, ou seja, se a moral é subjetiva, quem deve optar pela escolha são indivíduos envolvidos e ponto. Se a moral que você construiu ao longo da sua vida, te fez achar 'bacana' a ideia de abortar se você não estiver afim de ter um filho no momento, então tudo bem, afinal de contas, as consequências pelos atos pertencem totalmente a você. Entende ?

    2º Novamente eu acredito que se trata de uma questão individual e moral. Não sou religioso, portanto, não encaro o fato de ter um filho como uma "penitência", ou algo do tipo. Eu vejo como algo que acontece, afinal de contas, o nosso propósito (de uma forma crua) é somente a reprodução/ evolução da espécie. A minha moral, da forma como a constitui, me diz que não é tão legal a ideia de abortar (eu não gostaria de ter sido abortado , pq acho tudo isso aqui muito legal e engraçado rsr), então mesmo que eu fosse muito me foder por ter um filho, eu não reclamaria, criaria e faria de tudo pra manter a vida desse bebê. Mas eu consigo entender, e ainda defender a ideia de outras pessoas por não optarem ter um filho, pois eu sei que isso se trata de uma questão totalmente individual. Sobre o papel do homem, ou da mulher na hora da decisão, isso é uma coisa que envolve tantos fatores, e tantas hipóteses diferentes, que eu acredito que não há porque assumir uma realidade 'relativa' aos fatos que envolvem a ideia por de trás de se ter um filho. A única coisa que eu consigo visualizar são as consequências, e isso é um coisa que depende também dos envolvidos. Então não cabe a mim (índio) julgar uma situação hipotética, pois se ela acontece, foi porque as pessoas envolvidas permitiram (as vezes por ignorância).

    3º Olha, eu costumo dizer que nós, enquanto seres humanos, somos apenas uma mera ferramenta de interação com esse universo, entende ? Somos apenas um dispositivo de Entrada e Saída (tipo aqueles cabos HDMI kkkk sabe ?), muitas coisas passam pela nossa mente, e nós apenas transmitimos tudo aquilo que nos passa pela caixola. As nossas angústias, obviamente dependem dos fatores externos, e ter a consciência disso, nos faz 'aceitar' um pouco mais a nossa luta diária. E mais, eu diria que a angústia, é apenas uma ferramenta do nosso cérebro, que está ali pra nos dizer "Ei, cara ! Se move, vamo !! Faz alguma coisa aí ! Isso tem que mudar seu piece of shit ! Se bem que q se você tentar não vai dar certo ... Mas tenta cara, vamo ! Não, melhor não .. Continua aí, fecha a cara e fica triste mesmo que é mais fácil." entende ? É um mecanismo do nosso cérebro que os faz ficar insatisfeito com alguma coisa, por algum motivo ao qual você acredita que não tem solução (pelo menos não no momento). De alguma forma, se você deixar isso te dominar ... Bom, o cérebro simplesmente vai se viciar nisso. Você se torna alguém depressivo, triste, ansioso por natureza. A nossa insatisfação tem muito haver com o mundo ideal que nós criamos na nossa mente, mas que não conseguimos o atingir. Eu lido com isso de uma maneira bem complicada, pra te ser franco, pois em alguns momentos eu consigo achar um saco a ideia de ter fazer algo só pra me manter vivo, mesmo sabendo que isso tudo vai ter um fim (não seria mais fácil acabar com tudo logo ?) HAHA

    Angústias.

    • Boa, Luiz. Agora concordo mais com você. Hahahha.

      1. Concordo plenamente, mas ainda que o homem queira e a mulher não, acredito que a decisão dela deve prevalecer. Mas claro, isso só diz respeito aos envolvidos e o sistema de saúde deve estar equipado para receber essas demandas.

      2. Cagadas acontecem o tempo todo, nem sempre é ignorância, simplesmente aconteceu. E a moral não deveria prevalecer sobre essas coisas, nem o outro deveria opinar tanto, julgar tanto, pois como falou no item 1 ali, é uma decisão que só cabe aos envolvidos.

      3. Tenho uma teoria sobre isso: somos um tipo de praga que vem matando o Planeta e evoluímos tão rápido, que o Planeta ainda não teve tempo hábil de se defender. Foi o que aconteceu com os coitados dos 􏰙􏰚􏰔􏰐􏰎􏰗􏰎􏰙􏰎􏰖􏰗􏰑􏰕􏰙􏰚􏰔􏰐􏰎􏰗􏰎􏰙􏰎􏰖􏰗􏰑􏰕􏰙􏰚􏰔􏰐􏰎􏰗􏰎􏰙􏰎􏰖􏰗􏰑􏰕􏰙􏰚􏰔􏰐􏰎􏰗􏰎􏰙􏰎􏰖􏰗􏰑􏰕􏰙􏰚􏰔􏰐􏰎􏰗􏰎􏰙􏰎􏰖􏰗􏰑􏰕diprodontes e outros animais gigantes da Austrália, que viram aqueles magrelinhos cabeludos sem garras e continuaram comendo duas folhinhas ali de boa porque num viram ameaça alguma. Mal sabiam eles que nossa arma estava na caixola. Nosso tempo de existência é um sopro no tempo de vida do planeta e a ordem, a moral, só acontece dentro da nossa cabeça. Não fomos feitos só pra reproduzir. E continuamos evoluindo. E as funções orgânicas mudam. Nossa boca não foi feita para beijar. Mas em algum momento da evolução, percebemos que era uma boa manifestação de afeto, manja? Acredito que a evolução vai dar um troco na reprodução humana (estou escrevendo um livro sobre isso). Sobre as angústias, concordo com vc. Eu tenho um olhar muito positivo sobre a vida porque apanhei muito dela. Uma hora a gente fica com raivinha, mas uma hora a gente entende e agradece.

  4. Acho que nenhuma mulher deve ser obrigada a assumir tal responsabilidade realmente, mas isso o aborto não é a única opção. A gravidez de fato já lhe vai causar alguns transtornos, mas passa rápido, depois pode muito bem dar a criança para adoção, tem muitas mães desejando profundidade ter esse relacionamento divino sim, ser mãe não é um conto de fadas, mas quando se deseja ser tenha certeza que apesar de todas as dores existe o lado divino e fantástico, quase mágico, é simplesmente inexplicável a força que se descobre, o aprendizado e a evolução que podemos ter.E acho que a não ser pela falta de apoio familiar, que é muito importante, todas as outras circunstâncias podem ser contornadas ou não, sendo uma gravidez planejada ou não. Pode haver tbm as mães que planejaram e desejaram e se frustraram como tbm filhos indesejados onde se tornaram mães maravilhosas... Enfim...

  5. Uau, estou encantada com sua coragem e a maneira como escreve, sem medos, sem reticências, uau, uau, uau, parabéns.

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