Mulheres Revolucionárias: Patricia Galvão, ou Pagu

Pagu

mu”Pagú tem uns olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-coco quando passa.
Coração pega a bater.
Eh Pagú eh!
Dói porque é bom de fazer doer (…)”
Raul Bopp
Coco de Pagu

Muito mais que musa do Modernismo

Patricia Rehder Galvão, eternizada nos versos de Raul Bopp como Pagu, nasceu em 1910 na cidade de São João da Boa Vista, numa família burguesa e tradicional. Ainda jovem já era uma mulher à frente de seu tempo: não se intimidava em fumar na rua, usar roupas mais atrevidas, cabelos curtos e dizer palavrões. Aos 19 anos ela conheceu o casal que mudaria sua vida: Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Apesar de não ter participado da Semana de Arte Moderna de 1922 (tinha apenas 12 anos na época) acabou ganhando o título de “musa dos modernistas”. A amizade com Oswald e Tarsila logo se transformou num triângulo amoroso, Oswald separou-se de Tarsila e casou-se com Pagu, que esperava um filho dele.

Foi logo após o parto, quando viajou para Buenos Aires com o intuito de participar de um festival de poesia, que ela conheceu Luís Carlos Prestes, que lhe apresentou os ideais marxistas. Ao voltar ao Brasil se filiou ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) ao lado de Oswald de Andrade e passou a militar. Chegaram a fundar juntos, em 1931, o jornal “O Homem do Povo” no qual, em um de seus artigos, ela criticou as feministas da elite e os costumes das paulistanas burguesas da época. Naquele mesmo ano Pagu foi presa pela polícia de Getúlio Vargas durante uma greve de estivadores em Santos. A primeira de mais de 20 prisões as quais seria submetida ao longo da vida.

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Posta em liberdade em 1933, publicou o livro “Parque Industrial”, que narra a vida das operárias da cidade de São Paulo. A obra foi assinada com o pseudônimo de Mara Lobo, uma exigência do PCB na época. Logo partiu em viagem pela Europa onde atuou como repórter, fez cursos na Universidade de Sorbonne, em Paris, e se filiou ao Partido Comunista francês. Lá foi presa como militante comunista estrangeira e por pouco não teve o mesmo destino de Olga Benário. Queriam deportá-la para a Alemanha Nazista, mas, graças à intervenção do embaixador brasileiro Souza Dantas, conseguiu voltar ao Brasil.

Após separar-se de Oswald de Andrade, começou a trabalhar no jornal “A Plateia” e durante o Levante Comunista de 1935 foi presa e torturada outra vez. Ficou 5 anos na prisão e foi libertada em 1940, quando se desligou do Partido Comunista. Estava muito doente, magra e chegou a tentar o suicídio. Se casou novamente com o jornalista Geraldo Ferraz e teve seu segundo filho. Continuou sua carreira como jornalista e escritora e nos anos 50 atuou também como crítica literária, teatral e de televisão. Morando em Santos, liderou a campanha para a construção do Teatro Municipal, criou a “União do Teatro Amador de Santos” por onde passaram Aracy Balabanian e José Celso Martinez Correa, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais. Chegou a se candidatar à deputada estadual, mas não se elegeu.

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Voltou a Paris em 1962 para tratar de um câncer. A cirurgia não teve sucesso e ela tentou novamente o suicídio. Debilitada, voltou ao Brasil e viveu até dezembro daquele ano. Antes de morrer publicou seu último poema, intitulado “Nothing” e veiculado no jornal A Tribuna de Santos. Pagu se foi mas deixou seu legado na cultura e na história brasileira como uma das figuras mais notáveis do século XX. Vanguardista na forma de pensar e agir, ela lutou pelo que acreditava e abriu caminhos para muitas mulheres.

Foi representada na cultura popular de diversas formas, como na cinebiografia “Eternamente Pagu” (1987) dirigida por Norma Benguell, além da minissérie “Um Só Coração” (2004) da TV Globo. Na música, foi eternizada através de Rita Lee e Zélia Duncan na canção que leva seu nome, Pagu:

“Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem
Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque (…)”

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