Mulheres Revolucionárias: Leila Diniz

Leila Diniz
Caio Borges

Toda mulher quer ser amada. Toda mulher quer ser feliz. Toda mulher se faz de coitada. Toda mulher é meio Leila Diniz
(Todas as Mulheres do Mundo, Rita Lee)

Leila Diniz não foi militante, não foi feminista, mas se consolidou como uma das figuras mais emblemáticas e representativas da liberdade, do ser livre em plena Ditadura Militar. Nascida em 1945 na cidade de Niterói, trabalhava como professora primária e, em paralelo, atuava em peças infantis, fazia comerciais e pequenas pontas em filmes. As coisas mudaram quando conheceu o cineasta Domingos de Oliveira, com quem se casou por três anos e se tornou musa de alguns de seus filmes. Em sua curta carreira esteve em projetos distintos entre si. Sob as lentes de seu marido, estrelou ao lado de Paulo José o filme Todas as Mulheres do Mundo, um dos grandes clássicos do cinema nacional nos anos 60. Atuou com Cacilda Becker no teatro, esteve no Festival de Berlim em 1968 representando Fome de Amor de Nelson Pereira dos Santos, e ainda deu as caras nas telenovelas espalhafatosas e kitsch de Gloria Magdan, como em Shake de Agadir e Eu Compro Essa Mulher.

“Eu faço qualquer coisa que me dê alegria e
dinheiro, seja Shakespeare ou Gloria Magadan
” – Leila Diniz

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“Você pode amar muito uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo” – essa declaração, juntamente com os palavrões substituídos por asteriscos na lendária entrevista para o jornal O Pasquim em 1969, colocaram Leila na mira da ditadura. O país vivia um dos períodos mais tensos do regime, que endurecia gradativamente após o decreto do Ato Institucional Nº5 (AI-5), e foi logo após a publicação dessa entrevista que foi instaurada a censura prévia à imprensa, mais conhecida como Decreto Leila Diniz.

Mesmo sem ser uma militante declarada contra o governo militar, Leila enfrentava problemas com o regime. Em 1970 foi chamada para compor o júri do Programa Flávio Cavalcanti, comandando por um dos apresentadores mais controversos da televisão brasileira. Acusada de proteger militantes de esquerda, Leila foi perseguida pelos militares, que foram até os estúdios da TV Tupi no Rio de Janeiro, para prendê-la. Flávio Cavalcanti a escondeu em sua casa de campo em Petrópolis e pagou caro por isso: a censura resolveu tirar o programa do ar.

Existir, ser simplesmente Leila Diniz, já era motivo o suficiente para escandalizar a sociedade moralista da época. Em 1971, grávida do cineasta Ruy Guerra, Leila também chocou a sociedade carioca ao aparecer na praia de biquíni, ostentando uma barriga saliente de seis meses de gestação. Na época não era comum mulheres irem à praia grávidas, quanto mais vestindo biquíni. Sua intenção nunca foi escandalizar ou chamar atenção – ela teria declarado que seu médico lhe disse que o sol faria bem à ela e ao bebê. Dessa gestação tão polêmica nasceu a única filha de Leila, Janaína, de quem só pôde desfrutar a convivência por seis meses. De volta de uma viagem à Austrália, para promover o filme Mãos Vazias de Luiz Carlos Lacerda, Leila morreu em um desastre aéreo no dia 14 de junho de 1972. O avião colidiu nas margens do Rio Yamuna, em Nova Delhi, na Índia. Leila havia antecipado o vôo de volta por causa da saudade que sentia da filha.

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Aos 27 anos Leila entrou para a história. Pelo seu talento, pela sua liberdade inspiradora e por ter vivido como quis viver, o que foi um ato de resistência por si só naquela época – e ainda é para muitas pessoas nos dias de hoje. Foi uma vida breve, porém intensa, que deixou um legado imensurável enquanto artista e personalidade na cultura popular brasileira. Leila vive!

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