Minha vagina não é cupcake!

Minhavagina

A ‘’novidade’’ da vez é pingar gotas de essências sintéticas na calcinha, no absorvente e na pepekaA ‘’novidade’’ da vez é pingar gotas de essências sintéticas na calcinha, no absorvente e na pepeka, mas qual mulher aqui nunca teve aquele creminho estilo Victoria Secrets de baunilha sintética, para agradar a sei lá quem, exalando cheirinho de bolinho pela vagina? Eu amo cupcake e o problema não está nele, mas em uma sociedade doente e olfativamente domesticada querer transformar a mulher e, principalmente, o seu centro de poder e criação (a vagina) em um repertório de confeitaria.

Acontece que vagina não é um bolinho, é um órgão com cheiros pulsantes de corpo e esses aromas que dela saem são extremamente importantes não só para o sexo, mas para o autoconhecimento e autovalor da mulher. Através de nossos cheiros podemos saber se estamos a ponto de ovular, de menstruar, se estamos bem de saúde ou, até mesmo, tristes ou com tesão. O nosso cheiro pulsa junto as nossas emoções e isso é lindo, senhoras e senhores.

Não foram os homens de agora, exatamente, que resolveram que vagina deveria cheirar a baunilha, ter gostinho de cupcake e  aparência de uma boneca Barbie europeizada, foi a industrialização junto ao processo civilizador, fomentados em meio a mentalidade machista, que ditaram as regras sobre o que é ser mulher: dominada, frágil, pequena, lânguida, branca, ‘’rosinha’’, completamente depilada e cheirar a flor ou a doce.

O olfato é o único sentido do qual não temos muito controle, ele é um tapa na cara, incontrolável e insaciável. O domesticaram, é verdade, mas é justamente por ser o mais visceral dos sentidos que ele precisou ser silenciado. Já escrevi muito sobre isso e meu primeiro artigo para o grande público sobre o tema (leia aqui) causou-me muita dor de cabeça e perseguição virtual. O motivo: a sociedade teme a presença da mulher que controla a própria vagina, se masturba sem pudor, sente prazer e, por isso, sente-se livre e se conhece profundamente! Uma mulher dessas vai aceitar ser submissa?

É o conto da deusa Lilith que, ao ficar por cima de Adão no ato sexual, foi questionada pelo mesmo sobre sua postura. Lilith respondeu que gostava de ficar por cima, pois assim tinha controle sobre sua própria pelve, o que lhe conferia maior prazer. Indignado, Adão declarou que ela só poderia ficar por baixo na relação e que seu prazer não era importante para ele e, caso ela continuasse, não poderia mais morar no paraíso. Assim, Lilith foi embora, já que um lugar em não se poderia ser livre para ter prazer não era bem o paraíso. Deus transformou Lilith em uma serpente para ela rastejar pelo resto de seus dias (lembro que as cobras têm um olfato super apurado! São ‘’mulheres’’ selvagens e farejadoras).

Adão, então, se viu sozinho e pediu a Deus uma nova mulher, mas que dessa vez fosse submissa. Então, Deus fez Eva a partir de uma das costelas de Adão, mas ela vivia sendo tentada por uma tal cobra a morder uma maçã (símbolo do conhecimento) e o resto da história vocês já conhecem! Eva foi expulsa do paraíso porque ousou ouvir sua voz interior (Lilith) e resolver farejar, dar vasão a sua mulher selvagem e sentir o pulsar do seu sagrado feminino!

Pois bem, sempre tive uma ligação forte com aromas, sou sinesteta olfativa (uma condição neurológica em que os sentidos se cruzam), mas só tornei-me uma ‘’farejadora’’ (termo que amo) há quatro anos, quando parei de tomar anticoncepcional. Percebi que minha vagina começou a comunicar-se comigo através de seus cheiros. Os aromas mudavam de acordo com meu ciclo e pautar minha vida junto a esta nova integração foi mágico! Daí em diante mudei o foco de minhas pesquisas históricas e levantei um garimpo historiográfico para saber quem era a vagina e o que já havia sido pesquisado sobre os cheiros dela.

Como já esperava, o clitóris nem mesmo dava a cara pelos livros de anatomia, a vagina, só aparecia em estudos sobre concepção e gravidez, nada sobre prazer feminino, menos ainda sobre clitóris ser enorme, latente e ter vida própria, quem dirá sobre os cheiros dela! Ainda, googleando o termo ‘’cheiro de vagina” constatei que o mesmo sempre vinha precedido de ‘’mau’’ ou ‘’como acabar com’’. Pesquei que o aroma natural da vagina é odiado, pelo menos no Brasil. E como sempre escrevo, não é por falta de banho (a gente é descendente de índio, né), não é por questões ginecológicas mas, por uma causa principal que considero fundamental: misoginia!

Poderíamos pensar que esse ódio/ nojo pela natureza da vagina e a obsessão em transformá-la em um cupcake tenha sido causada pela política higienista ou processo sanitarista, mas quebro esse argumento com apenas uma pergunta: se é por isso, porque não existe também perfuminho, lenços e sabonete especiais para pênis, já que no Brasil acontecem mil (eu disse 1000) amputações de pênis, anualmente, por falta de banho?  

O que estou apontando, querida mulher e amigo homem, é que a vagina ‘’precisa’’ ter cheiro de baunilha, ser totalmente depilada e limpa absurdamente em tempo integral com lencinhos e perfumes específicos (que, inclusive, prejudicam a flora local), não por uma questão de higiene e saúde, mas por uma mentalidade misógina: uma mulher com cheiro de florzinha e baunilha (aromas que, historicamente, correlacionam-se aos séculos XVIII e XIX, Eras em que as mulheres eram totalmente submissas e que deveriam mostrar fragilidade) representa uma fêmea domesticada.

Uma mulher completamente depilada não é questão de higiene (pelo contrário, a total ausência de pelos pubianos aumenta a probabilidade de uma infestação de bactéria), mas de pedofilia. Dizer e impor às mulheres que vaginas devem ser rosas ‘’pepeka rosa’’ é estipular que mulheres negras ou fora do padrão europeu não são belas. Impor que os lábios vaginais devem ser fininhos, levando centenas de mulheres (inclusive ainda virgens) a fazer ninfoplastia (cirurgia de ‘’correção’’ da vagina, procedimento em que o Brasil é o primeiro no mundo) é negar a diversidade do corpo feminino e nos transformar em produtos.

Diante de tanto absurdo pergunto-me se homem gosta realmente de mulher? Mulheres mais velhas dizem que na época delas não era assim e que ‘’homem fazia sexo oral sem ela estar depilada e ele gostava’’, que ‘’o cara fazia comigo mesmo menstruada’’. Parece que os homens foram tendo seus pedidos e anseios misóginos concedidos com mais veemência conforme  a tecnologia e as indústrias de cosmética foram avançando. O homem de antigamente era menos misógino? Não! Ele só exigia da mulher o que era possível naquele momento. Os homens de hoje nos exigem, na maior cara de pau do mundo, o que um bisturi, uma cera quente, um laser, cosméticos e essências sintéticas cada vez mais específicas podem fazer por eles, e não por nós, mulheres.

Sabe, eu nunca vou pedir para homem algum fazer uma plástica ‘’reparativa’’ para consertar o pênis torto dele (a maioria dos pênis é torto, e aí?), eu nunca vou pedir para um cara saudável e higiênico se depilar com uma maldita cera quente, todo mês e morrer de dor ou que ele dê um jeito de ter cheirinho de cedro no pau! Um pênis não é sujo porque não exala sândalo, por ser ausente de manchas ou ‘’branquinho’’ (o branco é limpo e o preto é sujo, né! Olha o racismo dissimulado aí).

E como vamos agir sobre isso? Qual a solução? Creio que seja uma cuidar da outra, mostrar para as moças do trabalho que você está usando copinho na menstruação e como isso está te fazendo bem, falar com as amigas do grupo sobre as mandalas da lua que ajudam a entender nosso ciclo, conversar com as primas, com as sobrinhas sobre os nossos cheiros naturais e autopercepção. Contar nas rodinhas de chopp que existem ótimos apps em que você ‘’constrói’’ o seu ciclo e, principalmente, entendermos que se depilar por inteira é um agrado para um inconsciente pedófilo e que pepeka ter que ser pequena, fininha e com cheirinho de docinho é querer uma mulher frágil, submissa e domesticada. Você pode fazer/ ser tudo isso, mas só se você quiser e, desculpa, sociedade, mas minha pepeka é muito visceral para ser um  cupcake!

comentários

  1. Me faz lembrar da sabedoria em minha avozinha! Sempre me falou...meu netinho querido=pra ser mais feliz *tudo q for comer tera que cheirar antes...gracias

  2. Então é isso, simples assim: o corpo é meu e o cheiro vem junto! Parabéns por da vez e voz com seu texto!

  3. Olá,

    Seu artigo é fantástico, pois percebo no texto que raras mulheres poderiam falar tão bem sobre este tema de extrema sensibilidade feminina.
    Li também o artigo co-relacionado. Pesquisar e inspirar-se sobre o assunto é sinceramente algo divino. A percepção da natureza feminina tem se desfeito pelo tempo, bem como a do homem. Se me permite faço apenas ressalva sobre culpabilizar o patriarcalismo deste feito, embora tenha sua parcela de responsabilidade, penso que muitas mulheres como voce, ainda que em outros tempos, se destacaram do "fluxo sociocultural" e dos pavorosos paradigmas e encontraram a voz da propria natureza que responde a origem do que somos. Os homens hoje sofrem pela perda de sua identidade viril e firme e parece -me pelo visto que é só o começo deste processo.

    Grande abraço fraterno!

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *