Me dá a mão, me abre o seu coração irmã

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Deh e Lira por Maria Ribeiro

“Se vc tivesse mais peito vc seria insuportável, porque esse é o seu único defeito” – ouvi uma pessoa falar isso para uma amiga. Na hora pensei comigo que essa era a ofensa disfarçada de elogio mais cretina que já tinha ouvido. Estava a ponto de entrar na conversa quando ela acrescenta: “eu tinha o corpo tão parecido com o seu, sabe, me falaram a mesma coisa quando eu era mais nova. ”

Aí lembrei. Lembrei que pra ela estar reproduzindo esse discurso tão energúmeno, claro que ela sofreu essa violência. O ser humano reproduz as opressões. É o cúmulo da hipocrisia falar isso pra uma mulher, principalmente uma adolescente, e dizer que não sabe que ela vai ficar obcecada com a falta de peito – ou de bunda, ou uma estria, gordura, uma celulite, uma mancha – seja qual for o defeito que vc estiver apontando.

Porque a sociedade nos faz ser assim – estamos lutando, árdua e bravamente para desconstruir esses conceitos – e quando uma coisa dessas vem de uma pessoa querida é ainda mais difícil identificar. E é esse tipo de situação que dá vontade de sentar, chorar, arrancar os cabelos e desistir de tudo.

Mas a gente não desiste. A gente respira.
Uma, duas, muitas vezes.
Respirar é importante.

Ana por Maria Ribeiro

Começo a pensar nas gerações de mães, tias, amigas, irmãs que perpetuaram esse círculo de opressões, de alfinetadas, ofensas disfarçadas. Legiões de mulheres machucando e sendo machucadas, sangrando e infringindo sangue nas filhas, sobrinhas, afilhadas, netas. Mulheres que amam, pessoas próximas, pois onde há mais amor é, também, onde mais facilmente deitam-se as mágoas.

Nossas trajetórias são banhadas em sofrimentos velados, em espinhos marcados, em lágrimas derramadas nas águas do banho ou nas sombras dos travesseiros. Quantas dores, quantas amarras, quão sofridos são os machucados escondidos, reprimidos, oprimidos por um massacre emocional que gerações de mulheres sofreram, ainda, caladas. Vislumbro uma imagem de pés descalços furados de espinhos, banhados de sangue, mas caminhando. O peito arranhado, cortado de facão, o corpo arroxeado, marcado de pedras, mas caminhando. Caminhando e deixando as pedras no caminho, os espinhos, os punhais, atirando-os nas próximas gerações.
Como interromper esse círculo de opressão?

Mônica por Maria Ribeiro

A nossa geração é a que está falando sobre isso, trazendo a tona os comportamentos viciosos, destrutivos e velados dessa sociedade que odeia as mulheres. Odeia tanto que faz com que elas destruam-se umas as outras.

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Mas não, né?
Mas chega.

Deusas me dibrem de reproduzir essa cretinice com minhas filhas, sobrinhas, afilhadas. Mas pra não passar pra frente esse tipo de comportamento é preciso também parar de recebê-lo porque, receber e estocar dentro da gente, também não tem condições. Assim a gente explode. E pra mim foi bem marcante quando comecei a identificar esses ataques.

Deixa eu explicar uma coisa pra vcs, mães, tias, amigas, madrinhas, avós: se uma pessoa engordou, ela sabe disso. Eu garanto pra vc que ela está ciente desse fato. Se ela está com uma mancha no rosto, também te asseguro que ela já tem conhecimento. Ela tem espelho em casa. Ela tem roupas. Ela sabe do seu peso, das suas manchas, da sua celulite, espinhas, estrias, formato do corpo. E já é difícil e sofrido o suficiente lidar com uma sociedade que fomenta um padrão de beleza misógino, excludente, racista, gordofóbico e eurocêntrico. A quantidade de mulheres que sofre de distúrbios alimentares (vício/compulsão alimentar, anorexia, bulimia, etc), depressão, ansiedade, síndrome do pânico, entre outros, por pressão estética, é assustador.

Então, migas, parem de falar sobre o corpo e a aparência das coleguinhas. Apenas pare. Somente isso: não fale. Sabe quando vier aquele ímpeto de fazer algum comentário? Então, não faça. Isso é invasivo, violento, nocivo e desrespeitoso. Você está machucando e prejudicando uma pessoa que você ama.

Sabe o que vc pode fazer? Pode substituir uma ofensa velada por uma conversa interessante sobre os outros aspectos da vida dela, por exemplo. O trabalho, a viagem, os amigos, o que ela gostaria de fazer. Incentive as mulheres a se ocuparem com outras coisas que não sua aparência. A gente gasta uma quantidade tão imensa de tempo, energias, recursos e dinheiro em questões estéticas, enquanto há tantas outras coisas interessantes que podemos nos empenhar. Vamos falar sobre cursos, hobbies, cinema, literatura, séries, astrologia, música, teoria das cores, enfim, o céu é o limite! Ou não, vamos pra lua, pra marte. Pra onde quisermos.

Miriam por Maria Ribeiro

Vamos cessar esse movimento destrutivo entre mulheres. Vamos passar acolhimento, amor, compreensão, respeito e empoderamento para as próximas gerações. E elas também precisam desconstruir o conceito que têm de gerações mais velhas, pois isso também é um elo quebrado na nossa corrente. Como disse Naomi Wolf:  O envelhecimento na mulher é “feio” porque as mulheres adquirem poder com o passar do tempo e porque os elos entre as gerações de mulheres devem sempre ser rompidos. As mulheres mais velhas temem as jovens, as jovens temem as velhas, e o mito da beleza mutila o curso da vida de todas.

Deusas me dibrem, novamente, de deixar passar a oportunidade de envelhecer empoderada, amando a mim mesma e ao meu corpo, meus sinais do tempo, minhas rugas e meus cabelos brancos. Pelo menos em algum grau, trabalhando pra isso. E de desperdiçar uma fase tão importante da vida competindo, alfinetando e massacrando as gerações mais novas. Precisamos reconstruir esses elos entre as gerações de mulheres. Nós nascemos para sermos melhores amigas, conselheiras, porto seguro, companheiras de luta. Porque ninguém entende uma mulher melhor que outra mulher. Vamos seguir juntas! Me dá a mão, me abre o seu coração, irmã, vamos tirar os espinhos desses caminhos. Vamos atirar fora os punhais, jogar longe as pedras, deixar apenas sombra e água cristalina nessas trilhas, que as caminhantes já chegam cansadas dessa luta.

Pabline por Maria Ribeiro

Vem, amiga, vamos arrancar esses espinhos dos pés, fazer curativos nessas feridas, que a gente também não merece essa dor. Vamos passar água fresca nesse corpo, bálsamo nesses cortes, lavar esse sofrimento dos nossos passos. Vamos parar um pouco essa caminhada pra nos dar um tempo de cura. Vamos pegar os óleos, acender as luzes e bailar nessa clareira, pois só assim teremos um coração livre.

Veja também:  O conceito hipócrita de saúde: Corpo x Mente

Porque a gente, irmã, só pode dar o que tem.
E só temos o que criamos.
Vamos criar juntas.

comentários

  1. Fala tanto de não fazer apologia "somente" à beleza, a um corpo delgado, de não criticar e apontar o que os olhos vê como "incorreto ou desproporcional", mas só coloca imagem de mulheres bonitas, magras com padrões não condizente com o que vomita no texto. Nem ao menos finaliza com uma foto que revela a indicação de sua escrita.

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