Manual de sobrevivência para a consulta ginecológica

E certo que ninguém nunca acordou e pensou: “Que delícia! Hoje eu tenho uma consulta ginecológica!” – mas nos últimos tempos, a coisa tem ficado feia mesmo. Que atire a primeira pedra quem nunca se sentiu (1) desconfortável, (2) invadida, (3) infantilizada, (4) julgada ou (5) incompreendida ou sem compreensão nesta circunstância.

Nossa dinâmica social faz com que ninguém tenha lá muito tempo para fazer as coisas, o que tornou o cuidado em saúde um tipo de “fast food”: olhou, duas perguntinhas, medicou. A mesma dinâmica, faz com que achemos toda essa pressa muito normal, já que para se ter um sustento justo, temos que trabalhar muito mais do que muitos países por este mundão. Nisso, é claro, quanto mais rápida e cara a consulta, mais o profissional alimenta seu retorno financeiro e sustenta algum sentido em vestir o jaleco branco. Com poucos minutos disponíveis, é claro que explicar minuciosamente o caso abordado não é a melhor opção.

Eis que topamos essas condições e nos dispomos a nos consultar. “Vamos cuidar dessa feridinha, pode ficar tranquila”. “Mãezinha, como está essa barriga?”. “Com essa pomadinha isso passa. Vamos cuidar de você”. O vocabulário, um tanto quanto “acolhedor” a princípio, esconde a falta de disposição para explicar, em palavras acessíveis e não infantis, o caso que se apresenta. Mas há ainda um contexto mais grave – aquele que, junto ao pouco esclarecimento, vem carregado de julgamentos e condutas impostas. “Se você tem relação sexual sempre, precisa do anticoncepcional”. “Nenhum outro método funciona”. “A mulher moderna não precisa menstruar e nem sentir dor”. São inúmeros os argumentos a favor de métodos que nem sempre são a escolha de quem busca o cuidado, numa abordagem autoritária e vertical, reproduzindo de maneira perfeita todo o comportamento patriarcal da nossa sociedade como um todo.

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Mas como deveria ser, então? O tempo tem passado rápido demais para reclamarmos dos problemas sem dar solução. O que fazer com esse modelo pouco funcional de atendimento na saúde íntima? Listo aqui alguns passos para começarmos a mudar este cenário.

(1) Procure profissionais que já discutem essas pautas. Essa inquietação é coletiva e muitos profissionais de saúde já estão mudando a abordagem. O coletivo feminista de sexualidade e saúde de São Paulo é um exemplo de local no qual essas práticas estão sendo ressignificadas.

(2) Informe-se: leia sobre o assunto, busque livros, converse com pessoas da área, diversifique as opiniões. Cuidado com aqueles que receitam sempre as mesmas coisas.

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(3) Conhece a ti mesmo: olhe sua vulva! Sinta seu cheiro, seu sabor, observe-se todos os dias, frequente uma oficina de autocuidado. Alguns projetos ensinam a realização do autoexame com espéculo ginecológico. Você é a melhor pessoa para saber o que anda certo e errado contigo, siga sua percepção antes de comprar o conhecimento alheio.

(4) Pesquise e entenda as tuas escolhas: se o uso de pílula anticoncepcional não te contempla, você não precisa aceitar porque foi “o médico que mandou”. Entenda os porquês de cada método, qual seu objetivo e seja fiel aquilo que você acredita ser a melhor escolha. Busque profissionais que criem a conduta junto contigo.

(5) Denuncie: caso tenha sofrido alguma agressão ou assédio em consulta, comunique em redes sociais e outros meios de comunicação. Enquanto continuarmos silenciando e protegendo nomes, não haverá mudança de conduta.

Por fim, entenda o cuidado como um processo de co-criação, uma união entre o autoconhecimento e os saberes de alguém disposto a encontrar contigo o melhor caminho. O autocuidado é um ato político de retomada do nosso poder sobre nossos corpos e a mudança começa de dentro.

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