Mulheres Revolucionárias: Luz Del Fuego

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Se tem uma personalidade que não poderia faltar na nossa série Mulheres Revolucionárias é a bailarina e naturalista Luz del Fuego. Ela é a representação fiel do que é ser cínica: não se importava com as normas sociais e as conveniências morais. Era um ser livre e de bem com sua sexualidade e seu corpo.

Nascida como Dora Vivacqua em Cachoeiro de Itapemirim, cidade do Espírito Santo, em 21 de fevereiro 1917, foi a décima quinta filha do Seu Antônio e da Dona Etelvina. De família de intelectuais e políticos, ela se mudou junto com eles no início dos anos 20 para Belo Horizonte. Desde cedo era geniosa, não aceitava ordens nem opiniões sobre sua vida e odiava usar sutiã (#freetits). Já adulta, teve um caso com um grande empreiteiro da época, marido de sua irmã Angélica. Descoberto o caso, a família preferiu acreditar nas mentiras de Carlos, que disse que Luz del Fuego era esquizofrênica, o que culminou em sua internação em um hospital psiquiátrico de Belo Horizonte – e não seria a primeira. Seu gênio forte, e seu estilo livre de ser a frente de seu tempo, a levaria para uma internação psiquiátrica mais uma vez.

Fugida para o Rio de Janeiro no final dos anos 30, aventurou-se como paraquedista e se inscreveu num curso de dança. Em 1944, tornou-se a atração da noite no palco do Circo Pavilhão Azul, onde era anunciada como “a mais sexy e corajosa bailarina das Américas: Luz Divina e suas incríveis serpentes”. Três anos depois, por sugestão de palhaço, mudou seu nome para Luz del Fuego, como era chamado um batom que virou moda na época.

As apresentações logo provocaram furor por todo o país e transformaram-na em uma das principais atrações do teatro nacional. Repudiada pelos mais conservadores, que a consideravam “uma ameaça aos bons costumes”, Luz del Fuego continuava atraindo grande público para os seus espetáculos, tornando-se uma das vedetes mais conhecidas dos anos 50 no Brasil. Acabou por enfrentar forte repressão das autoridades em algumas cidades, sendo inclusive expulsa de algumas delas. “Luz del Fuego aplaudida por 293.975 pessoas”, anunciava o “Jornal dos Sports”, em 15 de janeiro de 1952.

No final da década de 40 começou a explorar os seus ideais existencialistas, naturistas e em defesa dos direitos da mulher. Escreveu dois livros, entre eles “A Verdade Nua”, de 1949, onde sua defesa do naturismo aparece com nitidez. Tentou candidatar-se a deputada federal com um partido político por ela fundado, o Partido Naturalista Brasileiro (PNB), que teria a defesa do divórcio, da mulher e do naturismo como principais bandeiras. Mas o partido foi impedido de ser registrado. Ela não se deu por vencida. Meses depois, seu interesse crescente pelo naturismo a levou até o ministro da Marinha e, por meio de uma autorização concedida por ele, foi viver em uma ilha por ela rebatizada de Ilha do Sol, onde fundou o Clube Naturalista Brasileiro – passou a ir para o Rio em apresentações esporádicas.  A colônia tornou-se uma atração para quem não se satisfazia com o roteiro turístico tradicional do Rio. O ator norte-americano Steve McQueen chegou a visita-la. Com a redução do movimento ao passar do tempo, o local se tornou mais vulnerável e Luz del Fuego chegou a ameaçar com uma arma dois irmãos pescadores porque desconfiava que estivessem usando a ilha para esconder material de contrabando. Motivados pelo desejo de vingança e convictos de que ela guardava muito dinheiro na ilha, eles a mataram com golpes de remo.

Nos anos 80, a vedete ganharia uma cinebiografia protagonizado por Lucélia Santos, que levava seu nome no título. Ainda nos anos 70, Rita Lee deu o deu o nome de “Luz del Fuego” a uma das faixas do disco “Fruto Proibido”:

“Eu hoje represento o segredo
Enrolado no papel
Como Luz del Fuego
Não tinha medo
Ela também foi pro céu, cedo.”

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