Lésbicas, bissexuais e o cuidado heteronormativo: o desafio da consulta ginecológica

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Não é segredo pra ninguém o desafio de ir à um consultório ginecológico. Para além de todo o constrangimento natural de precisarmos nos expor à alguém que mal conhecemos e que, muitas vezes, pouco dispõe de seu tempo e sensibilidade para nos ouvir, há ainda um desafio extra para nós – mulheres lésbicas e/ou bissexuais. Imaginemos a famosa cena e dentre as primeiras perguntas logo ouvimos:

– Você tem vida sexual ativa?

– Tenho sim.

– E qual método anticoncepcional você usa?

– Nenhum.

– Nenhum?! Nem camisinha?

Foram inúmeras às vezes em que a minha atividade sexual e o sexo da pessoa com quem me relaciono foram questionados. Milhares de respostas mal educadas vem a cabeça (“querido, o dia que dedo engravidar, me avisa!”), mas a gente mantém a compostura e explica que tem uma companheira. Rapidamente há um desconforto e o discurso continua com o mesmo objetivo: a prescrição da pílula. “Certo, mas o anticoncepcional não serve só pra não engravidar. Melhora o humor, a pele, você sabe que dia vai menstruar, não precisa mais ter aquela surpresa desagradável quando viaja”. Os métodos que eu escolhi usar para observar meu ciclo não são questionados. Os riscos que corro de contrair DST’S, enquanto mulher em relacionamento homoafetivo, não são sequer abordados. O meu desejo ou não de viver a maternidade passa longe de ser discutido, uma vez detectada a minha homo/bissexualidade. Não me dão informação, nem tampouco opções: o cuidado em saúde é sim heteronormativo, patriarcal e foca o cuidado íntimo da mulher em sua reprodução.

Sendo assim, aonde fica a atenção integral em saúde, que tanto buscamos? Os profissionais não estão preparados para orientar mulheres que desejam ter um controle natural de seus ciclos. Não estão preparados para ensinar sobre higiene e possibilidades de sexo seguro para lésbicas e bissexuais. Não sabem que, segundo pesquisa Mosaico 2.0, realizado pela sexóloga Carmita Abdo e equipe, lésbicas são a parcela da população que menos utiliza proteção no ato sexual. Mas isso é culpa de quem? Ao invés de apontar dedos, e seguir usando eles para coisas melhores, vamos dar uma olhada no nosso cenário de realidade.

Quantas opções de camisinhas femininas acessíveis você encontra em uma farmácia, quando comparamos à imensa variedade de cores, sabores e tamanhos para envolver o falo? Quem de nós está disposta a utilizar um preservativo pouco acessível financeiramente (salvo os distribuídos em postos) e cortá-lo, ajustá-lo, para um sexo oral seguro? Hoje em dia, a única ferramenta que garante a proteção do sexo oral em mulheres é uma suposta máscara de dentista (dental dam), queridxs. Agora me diz: há investimento em políticas públicas que ensinem a fazer sexo oral seguro em mulheres? Há investimento na criação de um produto responsável por esta proteção? Me diz aí se nosso dinheiro público não continua alimentando este patriarcado e ainda sim de maneira pouco inteligente, pois a transmissão de DSTs através do sexo oral pode ocorrer para ambos os sexos, já que a preocupação é só para eles…

Sendo assim, minhas caras, toda necessidade de mudança é pouca. Nós, enquanto mulheres lésbicas e/ou bissexuais precisamos estar muito bem munidas de informação e disposição para desbravar o mundo do cuidado em saúde. Precisamos nos comunicar cada vez mais para indicar aqueles que (ainda bem!) já estão trabalhando com outro olhar – inclusivo, acolhedor, co-criador de um cuidado coerente aos desejos da paciente – e principalmente, denunciar aqueles que mantém uma conduta desrespeitosa. Eu sei que dá trabalho (algumas viram os olhinhos só de pensar), mas outra coisa legal de nos dedicarmos é nos unir (sempre) e ensinar. Explicar para o profissional de saúde que nosso ato sexual é outro. Dizer que querermos ou não gestar não é a pauta principal. Escrever e divulgar que gostaríamos sim de entender melhor outros métodos de observação do ciclo que não a pílula anticoncepcional. Gritar alto que merecemos sim um cuidado inclusivo, integral, de respeito e clareza, não só na saúde mas em todas as áreas de nossas vidas. Visibilidade lésbica é também visibilidade pela saúde da mulher lésbica e a luta continua.

Um comentário

  1. Eu por exemplo estou com uma grande dificuldade de encontrar um profissional pelo meu plano de saúde que tenha foco em homossexuais. Em todas as outras especialidades médicas é falado o foco do profissional. Na ginecologia é apenas ginecologia ou obstetria. Chega a desanimar isso.

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