Jorrar, farejar, gozar: três verbos que amo celebrar para as mulheres!

gozar

Mulheres precisam gozar e não é exatamente sobre sexo com um parceiro (a) que refiro-me, isso é só consequência, uma soma do processo que é conhecer o próprio prazer, algo único e especial em cada uma de nós.  Este texto não é sobre o sexo como a maioria concebe ou foi educada a entender: um ato para procriação ou para agradar ao sexo masculino. Indago sobre algo muito maior que foi silenciado nas mulheres, um poder imenso em meio as nossas vísceras que nos pega em cheio, liberta a nossa criatividade e nos enche de vontade de viver. Algo que nos permite sentir o arquétipo da mulher selvagem, animal, a Eva que comeu a maçã e a Lilith que escolheu sair do paraíso para ter prazer.

Muitas de nós acabam vivenciando apenas o arquétipo da maternidade, pois tornam-se as mães dos filhos e também do marido. Outras, só vivem o arquétipo de Ártemis, viram a guerreira vinte quatro horas por dia, seja por proteção (diante de tantas feridas que já as atingiram), seja por necessidade, encarnando a mulher maravilha que trabalha, põe comida na mesa, cuida dos filhos, dos netos, vai para a guerra e enfrenta tudo, não tendo tempo ruim ou fingindo que ele não existe por pura sobrevivência. Ninguém sabe, mas essa mulher chora sozinha enquanto toma seus fracionados cinco minutos de banho. Ninguém sabe, essa mulher talvez não chore, mas está morta por dentro com uma carcaça firme por fora. A mãe, a cuidadora, a guerreira, a forte, a companheira, a que resolve. Mas onde está a mulher? A que goza, a que se permite ter prazer, é criativa e sente-se pulsando junto aos outros ciclos naturais? Que sente-se desejada como mulher e recebe admiração? Ela está silenciada e em quanto não for solta e vivenciada faltará a tal realização pessoal, a sensação de sentir-se viva e não, apenas, sobrevivendo, sem brilho e sem viço.

Quando uma mulher passa a reconhecer o poder do próprio gozo é impulsionada a encontrar seu propósito de vida. Quando não goza, e creia, são muitas, falta algo no olhar, o animal interno está morto e a alma não pulsa junto à vida. Ela passa a ser depressiva e não entende o porquê, as vezes, responsabiliza outras facetas da vida por sua falta de brilho nos olhos. Ela também pode passar a ser amarga consigo mesma, não ver mais graça em nada e dizer frases como “pelo menos é um bom pai’’, ‘’ele não me olha mais, mas é um bom marido’’, ‘’ele tem amantes, mas tudo bem, eu não estou bem mesmo’’, ‘’eu não estou bonita’’, ‘’não tenho libido’’, ‘’não me olho no espelho’’, ‘’pelo menos, profissionalmente estou bem’’, ‘’tudo bem, a vida é isso mesmo’’. Entende que falta algo? Falta o pulsar do gozo na vida.

Mas o que é uma mulher gozar? Seriam técnicas para liberar a pepeka, gozar e ponto final? Não, o gozar feminino ultrapassa qualquer questão fisiológica simplesmente porque fêmeas não gozam apenas com um canal vaginal, mas com a alma. É como uma batida forte com os pés no chão, um grito de liberdade no meio de um deserto, pois tenham certeza, as vaginas gritam e não é só quando um jato de sangue ou um bebê saem do meio de nossas pernas. Vaginas gritam quando nos emocionamos com o prazer que somos capazes de nos dar e, desta forma, descobrimos a nossa potencialidade. Nos sentimos realizadas porque sentimos que podemos tudo e estamos vivas! A vagina, o útero, os seios, as trompas, o coração, a alma, todos gritam juntos e esse poderoso movimento faz bem não só à saúde física da mulher mas, principalmente, a sua psiqui.

Ouço frases como “mas eu não sei me tocar’’, ‘’tenho preguiça, não tenho vontade’’, ‘’todas as minhas relações foram ruins ou fraquinhas’’ e a minha resposta é que você está desconectada de si mesma e  “precisa querer se comer’’. Eu sempre faço essa pergunta às mulheres que chegam até mim “você tem vontade de se comer?’’. Se sim, os outros temas podem estar ruins, mas a moça está vivaz, conectada, cheia de ganas e brilho nos olhos para reverter o que for preciso com muita criatividade. ‘’Querer se comer’’ é algo fundamental para as mulheres, se ninguém a deseja, ela se deseja e esse auto-sentimento é um processo de cura, autoamor e autovalor. Por todas as questões históricas que nós e nossas ancestrais vivemos (silenciamento, educação opressora, tocar o corpo como ato de vergonha, etc) o “querer se comer’’ e conseguir perder o pudor sobre si mesma não caem do céu e não vêm fácil. É preciso muita entrega, treino e auto-reconciliações.

Quando uma mulher vive a festa de seu gozo e sabe pulsar sua própria visceralidade ganha a capacidade de viver livremente, se torna criativa e entra em contato com seus propósitos. Sua matricaria (nome oficial da camomila, mas que, linguisticamente, dá conta de todo o pulsar feminino) torna-se viva, seu fogo interno acende e sentimentos como culpa e inferioridade (incrustados em todas nós) passam a se esvair, nos liberando a viver de forma menos auto-opressora, mais realizada e jorrando seus intuitos na matéria.

Mas a quem interessa não gozarmos e por que temos tanto medo de gozar? Na sociedade  em que uma mulher não pode nem mesmo se tocar, como pode ela sentir-se incentivada a entrar nesse processo de auto-conhecimento do gozo? O único jeito é questionar a sociedade e ter seus auto-encontros, nem que seja, inicialmente, com o chuveirinho do banheiro, na surdina, sem ninguém saber. Ninguém saberá mas, agora, ela sabe! E quando uma mulher sabe algo sobre si mesma ninguém a segura mais e mudanças profundas começam a pedir para acontecer. E tudo bem, ok! Sem vergonhas, lembre-se que os meninos são incentivados a mexerem no próprio bilau e a se masturbarem desde cedo. E você? Por que não pode? Por que é mulher? Acorda!

Historicamente, o silenciamento do gozo/poder feminino foi uma estratégia, pois mulher livre não caberia mais nos papéis de apenas procriar e cuidar. Era preciso silenciar o gozo da fêmea a domesticá-la para que servisse ao novo formato social. A mulher parou de gozar e junto a isso parou também de farejar. Para quem acompanha meus estudos sabe que  farejar é muito mais que sentir cheirinhos, é ter percepção sensorial e intuitiva aguçadas e estar totalmente pulsando com a vida. Percebo como mulheres que já se permitem gozar e são livres com a própria sexualidade se abriram também a sua capacidade olfativa e farejadora.

Conheço mulheres que poderiam estar gerando projetos, materializando sonhos, mas estão sem vida nos olhos, sua Lilith (deusa Lilith, que seria a primeira mulher de Adão e resolveu ir embora do paraíso por não concordar com o comportamento sexual passivo que ele lhe impusera) está adormecida. Conheço outras que até produzem profissionalmente, são workaholics, mas estão ácidas e amargas consigo mesmas ou solitárias, pois não fazem contato com a animalesca e alegre Lilith que pulsa dentro de si. Falta algo ali.

Paramos de jorrar nosso sangue para a terra, de farejar nosso próprio corpo e o entorno. Meninas, mulheres, idosas não reconhecem o cheiro da própria vagina, nem da ovulação e acham seu sangue algo nojento. Cheiro de buceta? Não pode falar, é feio! Ninfoplastia, perfume para ppk, absorvente, anticoncepcional, mulher sem cheiro algum, ufa! E gozar que é bom, nada!

Virou mãe do seu parceiro (a)? Vamos rever essa relação! Virou apenas companhia? Vamos rever, sexo é importante e se a pessoa que está contigo já não vê (e em muitos casos nunca viu) mais ao seu lado a fêmea, há grandes chances de você começar um processo de morte/ dormência da sua semente. Para não se perder de si mesma, passe a se masturbar, praticar pompoarismo, se tocar, se ver no espelho. Não consegue? Vamos com calma, eu vou te ajudar nessa jornada de se reencontrar com seu lado visceral e farejador. Acompanhe os meus textos e teremos muitas conversas. Deixo aqui a dica do livro “Vagina: uma biografia’’ de Naomi Wolf. E lembre-se, realização pessoal e sexual jorram juntas, pois o gozo feminino é o prazer que nos nutre e move o mundo.


Palmira Margarida

Palmira Margarida é historiadora especialista em cheiros e emoções e ama pesquisar sobre aromas do corpo feminino. É sinesteta e come coisas só porque são amarelas, inclusive não-comestíveis. Ama viajar e captar os aromas das trilhas e das histórias dos lugares por onde passa. Cria aromas-artísticos e provocadores e você pode encontrar em Site – Facebook – Instagram 

 

comentários

  1. Nasci numa família d bruxas. Fui educada a ser livre. Me conheço. Me sinto. Me amo. E gozo muito.

  2. Adorei o artigo. Tremendamente libertador. Inspirador. Sensacional. A repassar e torcer para muitas mulheres lerem e se libertarem também. Gratidão.

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