Indo com o vento

Indo com o vento

Você já encontrou uma mulher viajando sozinha? E se admirou da coragem e determinação que ela mostra? Chamou de corajosa? Talvez brincou que ela seja louca. Você nem imagina, mas cada passo dela foi calculado, cada rua escura ou carona conseguida teve nanosegundos de filmes passados na mente, a mochila deve conter uma faca, os lugares aonde dormir são observados previamente e a autonomia cobrada a exaustão. É sobre vencer não só o mundo, mas a cabeça ao resolver se aventurar só por aí.

(vou dar o fora daqui)

É preciso ter coragem para ser mulher no mundo. Independente dos seus medos, do seu estilo de vida, como caminha pela a rua, ou enfrenta a multidão sem rosto, caminhar livre nunca é só sobre liberdade e sempre é a respeito de coragem. Descobri isso cedo, quando pela primeira vez viajei com destino certo e sem companhia. Com certeza romantizei achando que trilharia os passos de Kerouac em On the road. Blowin’in the wind era minha meta para a estrada, mas há algo que o livro beat não narra, não por estar em um tempo ou país distinto, é algo que nunca um homem seria capaz de escrever. A estrada é feminina, mas os caminhos delas são infinitamente mais fáceis para pessoas do gênero masculino. Não importa a sua idade, o gênero é determinante para que as pessoas classifiquem o viajante como “louco (a)”, “corajoso (a)” e ou “aventureiro (a)”. Há sempre alguém para dizer, em versos não tão bem formado quanto os que Bob Dylan solta por ai Beware, doll! You’re bound to fall! (Cuidado, boneca! Você pode se dar mal!).

The highway is for gamblers (A estrada é para jogadores)

Viajar só é sobre ser uma jogadora e estar consciente das regras, elas podem mudar de destino a destino e é preciso estar atenta. Nas minhas últimas férias, estive no oeste do Pará. Um lugar repleto de água doce, florestas e misticismo ancestral indígena. Lá também encontrei com verdadeiras hordas de mulheres delimitando seus territórios, ocupando espaços e seus próprios corpos, alertas, conscientes de si e em plena sintonia com os papéis que elas estavam dispostas a realizar. Era na verdade como um grande reencontro de mulheres lobas e alguns garotos perdidos – uma diferença gritante entre homens e mulheres viajantes solos, os homens costumam estar sempre flanando enquanto as mulheres estão aterradas. É prazeroso ver que o gosto pela liberdade é maior do que qualquer imposição de medo que se coloca à nossa frente. Em Alter do Chão quem me ensinou as regras foram as outras mulheres que haviam chegado antes por lá. É como se cada uma de nós estivesse ali destinada a troca entre nós.

Veja também:  Pornografia de vingança está perto de se tornar crime no Brasil graças à Lei Rose Leonel

Chegar a uma cidade desconhecida, no meio do mato e dormir numa rede sob o céu estrelado foi uma das sensações mais prazerosas que 2017 me permitiu. Acender uma fogueira numa “praia” de água doce ou nadar nua no rio Tapajós, cujas ondas parecem mar, foi libertador. Longas caminhadas por trilhas, amizades doces e cheias de vida ao ritmo local, danças ditadas pelo tambor que une o indígena com o afro.Não há muito como explicar minha vivência regada de tacacá e de ajuda sincera entre mulheres. Há magia fora do cinza da cidade, na água que nos limpa de todas as formas, nas crenças, no boto, no carimbó e no encontro de mulheres forte.

A complete unknown? Like a rolling stone (Como uma completa desconhecida? Como um andarilho)

 

Veja também:  Você não tem o corpo perfeito e tá tudo bem

 

 

Um comentário

Deixe um comentário

Seu endereço de email não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados com *