I Love Dick - Um livro de mulher

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TEM SPOILERS!

Quando a gente lê um livro que pega nas vísceras, que inspira e que questiona, ainda mais com uma narrativa tão profundamente feminina, acho saudável e necessário até discutir com outras mulheres.

Se você viu a série, e gostou (como eu) indico fortemente ler o livro. Ele é menos fofo  – não que a série seja o que estamos acostumadas a chamar de fofa – mas ela é mais palatável em muitos níveis.

O enredo, baseado nas cartas que a protagonista ela escreve pra Dick, tem muitas camadas e eu vou precisar ler o livro mais vezes se quiser realmente explorar todas elas. Mas, mais do que questionar a paixão e como ela funciona como um mecanismo artístico e existencial pra Chris, ele questiona, basicamente, quem pode falar e ser escutado. Quem pode falar o que, em qual espaço. Ela quer ser ouvida, ela diz “imagino se você também sente essa urgência incrível de ser ouvido!” e eu me identifico com isso de uma forma extremamente profunda. O que mais vivemos nesse mundo virtual é uma ilusão de que temos alcance e somos escutados, quando a maioria das vezes estamos falando para ninguém.

Mas voltando ao livro, ele aborda de forma holística e analítica como tudo que o uma mulher expressa baseada em seus eus líricos é tido como sentimentalista, biográfico (de forma diminutiva) ou “menor”, enquanto que aos homens tudo é permitido, eles mudam os nomes de um personagem ou dois e é “genial”. As rodas de conversa, as festas e vernissagens, os lançamentos com suas mesmas narrativas, que ela denomina hétero-romances. O mundo que nos nega espaço, que nega nossa própria existência, que nos barra e nos veta quando somos nós quem fazemos a verdadeira análise, os questionamentos mais profundos e revolucionários.

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A quantidade de artistas mulheres que ela se refere no livro é imensa! Terei que voltar só pra anotar tudo, pois chegou um momento que se eu continuasse parando nunca terminaria de ler. Artistas que, claro, eu não conhecia, enquanto os homens estão nos jornais, nos museus e nas estantes do mundo todo.

Ela questiona de forma intensa o seu lugar de mulher. De mulher artista. De mulher “não-intelectual”  mesmo ela sendo intelectual de forma brilhante e intrínseca. Ao relatar a forma vil e repugnante com a qual ela foi tratada uma vez por um “ator brilhante”, diz que construiu uma filosofia, que a arte transcende o que é pessoal. Um lema que serve bem ao patriarcado e que ela seguiu por vinte anos. O que estamos a ver em Hollywood é o que? Exatamente isso, que ela escreveu em 1997.

Ela é tão crua, tão honesta e tão verdadeira em seus sentimentos que dá um certo pânico assistir a árdua e humilhante situação em que ela se coloca enviando as cartas de amor ao Dick. Mas exatamente isso que ela utiliza como seu eu poético, não porque não está acontecendo –  pelo contrário, ela insiste em dizer que o amor é real e relata tudo o que a faz sentir isso com veracidade – mas porque precisamente esse estado tão feminino e estereotipado a coloca nesse lugar. De expressar essa arte. Ela faz desse sentimento um projeto que passa por ela mesma. E se dispõe a se colocar em um local tão vulnerável, tão aberto e exposto que nos causa quase desespero. Dá vontade de falar como a gente fala com as amigas: “por favor, para de correr atrás desse lixo, ele não te merece! Ele é insensível, oportunista, misógino” e por aí vai.  Mas não, ela se deixa mergulhar nesse lugar.

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Enquanto na série, Dick já muda e a vê de forma diferente na primeira temporada (conto de princesa né) no livro ele é escroto até o fim. Eu avisei que era menos fofo. Mas a narrativa faz sentido, pois algumas coisas me incomodaram na série e não fazem parte do livro, como: as frases misóginas e abertamente anti-feministas que ele fala logo que eles se encontram. A cena catártica em que ela grita que não gosta de cinema feito por mulheres e que gosta de filmes de Hollywood (não é verdade) mas confesso que eu estava esperando o momento em que ele iria se comportar como um ser humano do bem. Mas não: a última cena do livro é quando ele, finalmente, envia uma carta pra ela. E era apenas o xerox da carta que ele enviou ao seu ex-marido, expressando que não pediu para ser alvo de nenhum projeto dela e tentando reatar a relação profissional com ele. E ainda errou o nome dela. Ponto. É isso.

Eu gostaria de ter mais e melhores palavras pra descrever o quão visceral é essa narrativa, o quanto ela mexeu comigo por ter inquietudes, crises, questionamentos e desesperos tão análogos aos meus.

É, sem dúvida, um livro de mulher, com toda a força e toda a excelência que carrega.
Recomendo.

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