“FEUD” – Quando as mulheres são penalizadas por serem mulheres e envelhecer

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Nos anos 30 tanto Bette Davis quanto Joan Crawford eram duas das maiores divas do cinema. Enquanto Bette era conhecida especialmente pelo seu talento, Joan era aclamada por sua beleza, tanto que só foi começar a ser reconhecida por seu talento quando ganhou o Oscar de melhor atriz por “Almas em Suplício” (1945). Por sua vez, Davis colecionava indicações ao Oscar e atuações elogiadas pela crítica, à medida que passava longe de figurar entre as mais belas musas da época – tudo isso, claro, a partir dos padrões de beleza impostos naquele tempo. Não demorou para que, não só os colunistas de fofoca, mas os produtores e diretores também usassem isso para fomentar a rivalidade entre as duas. Foi durante os anos 40 que a rivalidade entre ambas se intensificou, quando Crawford assinou contrato com o mesmo estúdio de Davis. Jack Warner, o presidente do estúdio, não hesitou em usar a rivalidade delas para manipulá-las e lucrar em cima disso. Como as duas eram da mesma faixa etária, elas acabavam disputando papéis e a atenção do estúdio. Em paralelo, os temidos colunistas de fofoca da época, em especial a famosa Hedda Hopper, incentivavam a rivalidade para alimentar seu público ávido pelos barracos e alfinetadas.

Assim que Ryan Murphy anunciou que faria uma série baseada na histórica rivalidade entre as atrizes – que teve seu ápice durante as filmagens de “O Que Terá Acontecido à Baby Jane?” nos anos 60 -, muitos fãs da chamada Era de Ouro de Hollywood ficaram animados em ter esse acontecimento dramatizado e protagonizado por outras duas grandes atrizes de nosso tempo: Susan Sarandon (Bette Davis) e Jessica Lange (Joan Crawford). Mas o que ninguém imaginava é que a série usaria essa história como veículo para abordar o machismo e o etarismo na indústria do cinema que era e ainda continua sendo cruel com as mulheres.

Bette Davis e Joan Crawford em O Que Terá Acontecido à Baby Jane?

Na série, Joan Crawford está se aproximando dos 60 anos e os papeis estão cada vez mais raros e restritos à estereótipos de gênero. Até que surge a oportunidade de protagonizar um filme de horror B chamado “O Que Terá Acontecido à Baby Jane?” dividindo o protagonismo com sua maior rival: Bette Davis. No longa, as duas vivem irmãs artistas que ao longo da vida disputaram a atenção do pai e do público e agora estão velhas e decadentes. Os bastidores das filmagens eram quase que insustentáveis e renderam histórias que fizeram os fofoqueiros da época se sentirem como pinto no lixo.

Após o lançamento do filme, a rivalidade se intensificou. O marketing “não oficial” era praticamente todo baseado nas brigas das duas durante as filmagens. A imprensa e o público queriam ver as divas da Golden Age agora velhas e decadentes brigando entre si na tela grande, mas acabaram se deparando com um material de qualidade acima de tudo. A nomeação de Bette Davis ao Oscar e a esnobada de Joan Crawford deu um novo status a essa história que acabou se estendendo nos anos seguintes a medida que as duas iam envelhecendo, tendo cada vez menos oportunidades e recorrendo à filmes de segunda linha ou séries de TV – na época, um sinal de decadência.

Enquanto aos atores é atribuído um certo charme à medida que vão envelhecendo e continuam ganhando bons papeis, as atrizes enfrentavam, e continuam enfrentando, o preconceito da indústria e do público. Os anos finais de Joan Crawford foram bem lamentáveis devido ao afastamento de amigos dos tempos áureos e sua dificuldade em aceitar a idade avançada. Em 1974, ela realizou sua última aparição pública em um evento de honra de uma velha amiga. Joan não gostou nenhum pouco das fotos que apareceram nos jornais no dia seguinte por considera-las de mal gosto e disse: “Se é assim que eu aparento, então eles não vão me ver mais.” Imediatamente cancelou todas as aparições públicas, começou a recusar entrevistas e a receber menos visitas, se entregando ao álcool e vivendo reclusa até a sua morte em 1977.

Enquanto muitos esperavam uma série que colocaria sal na ferida e reascenderia essa rivalidade, Ryan Murphy, com a ajuda de Sarandon e Lange, surpreendeu e apresentou um material que humanizou essas personalidades, mostrou o quanto a misoginia foi tóxica na vida dessas mulheres, como Hollywood alimentou essa rivalidade por dinheiro e entretenimento e que elas foram manipuladas, ofendidas e perseguidas simplesmente por serem mulheres e envelhecer. A prova de que pouco ou nada mudou nos dias de hoje é que Ryan recentemente declarou: “É algo tão enraizado na nossa cultura (alimentar a rivalidade entre duas mulheres) que mesmo quando começamos a filmar a série, eu recebia ligações de jornalistas perguntando ‘Jessica e Susan estão se dando bem juntas? Está acontecendo alguma briga?’ e eu queria mandar todos eles irem se foder.”

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