Fake news e a pornografia

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Em 2016 a Califórnia foi às urnas para determinar se produções pornograficas filmadas no estado deveriam obrigar os atores a usar camisinha. A proposta, levada por Michael Weinstein, sugeria que toda a população se tornasse fiscal do conteúdo feito dentro do estado, além de sugerir que a pornografia feita sem uso de preservativo incentivava aos mais jovens a não se proteger. Por trás da proposta, dizem os opositores de Weinstein (que comanda a AHF – Aids Healthcare Foundation-, uma organização fundada em 1987 que arrecada fundos para financiar o tratamento de pessoas soropositivas), estaria a perda de financiamento e clientes desde para a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), já que o medicamento já tem sido negociado a preços mais acessíveis. A pornografia, apesar de pivô na proposta, era só o vilão mais fácil na busca de dinheiro.
Quando decidi trabalhar na pornografia, eu já transava e já sabia que enfrentaria vozes anti a atividade. Tinha plena consciência que qualquer meio profissional com mais homens do que mulheres no comando seria gatilho para abusos. Não tenham dúvidas da minha consciência das mais diversas problemáticas quanto a indústria, mas no distante 2010, o termo fake news ainda não era usado para notícias falsas de nenhuma origem e vira e mexe alguma pesquisa sem dados concretos surgiam falando sobre os danos da pornografia para a sociedade, assim como alguns nomes passavam a ter mais destaques naquilo que cunharam como pornografia feminista, termo esse que abomino, mas entendo o conceito.

A pornografia é um inimigo fácil. Uma indústria gigantesca que mercantiliza sexo, objetifica corpos e ensina sexo, diz a sociedade. Mas é lugar da pornografia educar e ensinar? A resposta dessa que vos escreve é: NÃO. Pornografia, assim como tv (área na qual sou formada), não é sobre educar e sim sobre entreter. Jogar na conta apenas da indústria problemas da sexualidade distorcida, da visão deturpada sobre os corpos e no trato entre pessoas durante ato sexual é escolher um alvo simplista e fechar os olhos para toda a sociedade patriarcal e indústrias como a publicitária, que entra diariamente na vida das pessoas via pop up, novelas, revistas, jornais e sites com faixa etária livre e didática clara sobre o que teoricamente deveria reger o certo e o moral e belo no que diz respeito ao corpo feminino.
Não retiro a responsabilidade do pornô quando absorve, transforma em vídeo e lucra com o que a sociedade já usufrui e trata com normalidade, seja em lugares fechados ou abertos. Em vias sexuais a indústria não é o começo ou o fim, assim como todo bem de consumo ela é um meio. Há um problema social se jogamos para o entretenimento adulto a forma de instruir o início da vida sexual dos nossos jovens, considerando que pornografia tem classificação etária +18, e que os tabus morais e religiosos de cada sociedade nos faz silenciar sobre qualquer ensinamento que fuja do sexo reprodutivo e da anatomia. Precisamos aprender a falar sobre sexo de maneira também recreativa e positiva, e é nesse lugar que sempre me esforcei para estar.
Pornografia é a mesma coisa que escravidão sexual? Atuação em filmes pornográficos são feitos via contratos assinados por pessoas adultas. Se algo foge disso é crime! Assim como a indústria hollywoodiana, durante muitos anos homens se aproveitaram imensamente de suas posições de poder para explorar mulheres. Na pornografia, como em hollywood, há movimentações e denúncias, mas nenhuma dela sobre escravidão ou tráfico de mulheres. É aqui que entramos com a fake news.
Há algum tempo vem circulando livremente por algumas páginas um informativo sobre uma atriz que ganhou um AVN ( Adult Video News – algo como o oscar pornô) por melhor cena de DP anal. O que consta é que essa mulher se chama Laurin Crossin e é uma sobrevivente de tráfico sexual. É estranho nunca ter ouvido falar o nome da mulher que dava esse depoimento.
No google, e por 10 páginas de busca, não há absolutamente nada além de links ligados a uma ONG que se assemelha a algo ligado a igreja.

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Se você já trabalhou, ou trabalha, com pornografia ou até mesmo já viu alguém lidar com pornô de vingança sabe que a internet não é um lodo de onde você consegue sair ou apagar rastros por inteiro, em especial quando você ganhou um prêmio amplamente divulgado em sites convencionais. Fui atrás da ONG onde ela está como fundadora, o nome com grafia correta é Laurin Crosson e também não tem nada além da ONG dela no google, essa atriz nunca existiu.
Há alguns anos uma pesquisa falava que atrizes pornôs tinham expectativa de vida de 36 anos. A afirmativa vem do Pink Cross, um centro que é regido pela Shelley Luben, ex atriz americana com forte ligação com a igreja. Com números que fogem bastante da realidade, o site afirma que 85% das produções de 2003 a 2014 tiveram profissionais que morreram de AIDS, homicídio ou abuso de drogas. Sem citar nomes, sem dados palpáveis, sem ao menos um link que nos leve a comprovar que essa pesquisa foi realmente feita e qual campo foi usado. A mesma fundação afirma que 70% dos casos de DSTs são em mulheres, dado jogado a esmo que foi usado ano passado por um grupo de Saúde Feminina. Há quem interessa que profissionais do sexo pareçam doentes?

(print com o que acontece quando há suspeita de HIV na indústria)

As mulheres mais cientes de seus corpos, de seus cuidados que conheço são as profissionais do sexo que me rodeiam (sejam elas atrizes ou prostitutas – cis e trans). O papel dessas mulheres foi e é fundamental para a prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). Hoje, há prostitutas e profissionais do sexo como agentes de saúde e se joga na lata do lixo todo o bom trabalho delas espalhando notícias sem caçar dados reais.
Não gostar de pornografia e ter o direito de não consumi-la é sobre liberdade, mas espalhar boatos que só prejudicam as trabalhadoras e que se forjam via militância sem consciência política alguma é mal caratismo.

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