Eu nunca entrei no armário

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Sou uma pessoa discreta, embora não o tenha sido a vida toda. E por conta disso, além da curiosidade alheia que de fato pouco compreendo, resolvi escrever algumas coisas sobre mim. Principalmente para as pessoas que não são íntimas e pensam que me conhecem.

GENTE EU NUNCA ENTREI NO ARMÁRIO. Então, não, não estou saindo agora. Simplesmente eu nunca entrei. Ele não era meu, nunca foi. Desde pequena, assim como a maioria das meninas eu fui estereotipada; ‘Tão linda, parece uma Barbie’. E como se isso não bastasse a sociedade queria que eu fosse uma. (Não falo da minha mãe, ela nunca nos impôs ser qualquer coisa que fosse), falo da divisão de gênero ridícula que existe desde que me entendo por gente. Eu sempre fui feminina, o que aparentemente limitava que eu fosse algo mais. Já o  adjetivo ‘delicada’ me dedicaram sem opção de recusa.

Certa vez, por volta dos meus 7 anos, ganhei a milésima roupa cor de rosa, uma camiseta que fazia conjunto com um short saia. A minha irmã, que sempre foi mais moleca ganhou o mesmo conjunto em outras cores. Eu via nos olhos dela a frustração de nunca ganhar cor de rosa, e eu, estava apaixonada pela camiseta azul marinho dela. Ela era mais moleca e não podia usar cor de rosa? Eu mais feminina e não podia usar azul? (Isso não era obrigatório, mas sugerido sempre). Eu na minha condição de criança no processo do saber, muitas vezes joguei sobre a minha pequena irmã -preconceitos que pulavam do armário- justamente por que ela não era tão feminina e delicada como me diziam ser. Mas desta vez não, joguei foi a camiseta rosa no ARMÁRIO. E ela, a azul; e ambas, sem saber exatamente o que se passava estávamos aceitando os nossos gostos e negando o grande tabu de gêneros que nos foi imposto. Que começava ali, ditando o que é feminino e masculino. Amei tanto trocar aquela camiseta!

Como toda criança fui moleca, andei de bike, subi nas árvores, corri, de roller. E sim, na pré- adolescência quando comecei a prestar atenção nos meninos parei de brincar. PAREI DE BRINCAR! E sabe porquê? Eu ficava com as pernas roxas com facilidade, e isso “Não era coisa de mocinha”. Eu não fazia ideia de que estava espiando a fresta do armário. Mas não entrei, lá eu não via nada. Eu brincava escondida, brincava no sítio, brinquei de ser criança até depois de crescer. Logo mais, percebi que eu podia ‘e devia’ ser bonita… Depilada, maquiada(não demais), sociável, educada, e que como todas as meninas (ainda mais do que as mulheres) eu não deveria falar muito, principalmente com os homens e adultos. Mas como eu nunca gostei ou entendi essas regras do armário, eu falava mesmo. A adolescência estava aí, e eu, que era decidida e falava o que pensava, usava o que gostava, e agia como qualquer adolescente. Por ter tantos traços padrões, e não me encaixar no padrão, fui julgada uma menina fácil (tantas vezes, por estranhos, por vizinhos e até pela família). Por que eu não merecia ser respeitada? Se isso me afetava? Deve ter incomodado um pouco, muito pouco.

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Sempre tive pena de pessoas que julgam as outras. Eu era tão dona das minhas decisões que pouco me importava. Mas hoje importa. Por que os meninos são ensinados desde cedo que ‘tipo de mulher’ é para ‘casar’ e ser levada sério. E isso também os limita a serem homens machistas e babacas. Por que eles não querem que você seja bonita, tenha voz e faça o que quiser. Mulheres decididas são julgadas e reprimidas. Hoje eu sei disso, há dez anos atrás eu só sabia que algo estava muito errado. E que não era eu. Esse algo errado vinha das mesmas pessoas que julgavam minhas amizades pela condição social e algum menino que eu saia pela cor da pele.

Dentro do armário é escuro demais, eles não percebem a própria cegueira. EU NUNCA ENTREI NO ARMÁRIO. Nunca aceitei que me dissessem o que gostar, o que vestir ou como ser. Desde o momento em que entendi que não tinha nada de mais eu gostar de azul e minha irmã do seu cabelo curtinho e ainda assim de usar rosa! Nunca aceitei que me classificassem por melhor ou pior. Nunca deixei de lado um assunto do qual queria saber. Li tudo que encontrei sobre sexo,  e principalmente o órgão reprodutor feminino em horas na biblioteca da escola ‘burlando as regras’, que diziam que aos 13 anos e menstruando há dois eu não deveria ter acesso à certos livros. Mas eu queria entender como o meu corpo funcionava! E isso, sempre esteve trancafiado no armário. O corpo feminino é santificado(por gerar vida), julgado(por ser exposto e por gerar vida) e exposto(ao bel prazer masculino, aí tudo bem!) e essa frase é tão ridícula e absurda quanto o seu conteúdo. Esse armário do qual eu venho falando é uma expressão que expõe alguém que guarda segredos, referentes à sua própria condição sexual. E quando os expõe, vem um filósofo ditador da verdade e diz: “Olha! Fulaninho saiu do armário.” Mas o que vocês não sabem, ou não pensaram é que se essa pessoa se escondeu, se reprimiu e teve medo de se expor foi por que tinha muita gente dentro desse armário ditando quem, o quê e como ela deveria ser. O armário é social, o armário é seu. Então, antes de se preocupar com quem eu durmo, reflita: EU NUNCA ENTREI NO ARMÁRIO!

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Giovana Escalante

Giovana Escalante, Técnica Ambiental que nunca exerceu a profissão, Cabeleireira por acaso, mulher por ironia do destino. Escritora por dom, poetisa por expressão. Gaúcha, terminou um (segundo) noivado por uma mulher que conheceu em suas primeiras férias. Transgressora de uma cultura conservadora e classicista. Lésbica, Bissexual? Não gosta de rótulos. Eu diria Livre. Ela chega, se fala ou cala pouca diferença faz pois de qualquer forma transforma.

Contato: gm21gi@hotmail.com

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