Entendi: Eu fui estuprada

entendi, fui estuprada

“Eu quero contar como eu descobri isso para poder ajudar outras mulheres.”

Era um final de semana qualquer que eu estava num restaurante qualquer. Um dos garçons era italiano. Rolou um flerte entre nós.
Sim, rolou só um flerte entre nós…
Nunca imaginei que esse flerte levaria ao que levou. Fato é que eu só descobri que o que aconteceu foi um estupro após passado um ano do ocorrido. Um ano. E reviver a cena como uma cena de estupro foi horrível.

Eu quero contar como eu descobri isso para poder ajudar outras mulheres.

Eu estava na casa de uma amiga que estava me contando sobre o estupro que ela sofreu e todos os processos judiciais que ela estava resolvendo na época.
Em determinado momento ela me disse “nem sempre a gente percebe na hora, a gente demora para entender que foi estuprada”.
Na mesma hora me veio muito clara aquela cena do banheiro do restaurante.
Pasmem. Parece fetiche, mas foi estupro.

Parecia fetiche, pois pensem comigo: poxa, eu flertei com o garçom, ele era bonito mesmo, ele achou que eu quis transar com ele e quando eu entrei no banheiro, ele entrou atrás e me comeu a força, sem camisinha, enquanto eu falava “sai”, ao mesmo tempo que eu não sabia muito bem o que fazer, afinal eu flertei com ele.

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Verdade é que nós mulheres somos tão objetificadas o tempo todo que chega ao ponto de acharmos que um cara pegando a força faz parte da vida. É normal. Assim como parece normal as pessoas questionarem você sobre o assunto com perguntas e afirmações do tipo: “Mas, você deu mole para ele? Tinha bebido? Também, você estava de saia”;

Nessa época eu já era feminista.Eu já sabia de tudo… até a página 2. No momento em que estava acontecendo eu não lembrei de nenhuma teoria que explicasse que aquilo era um estupro. E mais, lembrei que situações parecidíssimas já haviam acontecido diversas outras vezes em escalas menos trágicas.
Quero dizer que, com certeza, se eu tivesse ouvido casos de estupro contado as claras eu teria entendido mais rapidamente que aquilo era sim um estupro e teria agido de outra forma. E eu adoraria ter agido de outra forma para não ter que lidar com isso sete anos depois. Até porque, uma coisa que eu sabia na teoria e não sabia como funcionava na prática é que quando acontece um estupro é necessário ir até o posto de saúde imediatamente e tomar os remédios preventivos.

Parece óbvio, mas não é, assim como não é tão óbvio identificar um estupro quando ele acontece com a gente. De alguma forma parece até mais fácil identificar um estupro quando acontece com outra mulher. Porque somos no mínimo solidárias e buscamos a sororidade.

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Durante muito tempo eu tive vergonha de contar isso para qualquer pessoa. E essa é uma outra questão que precisa ser desconstruída.
Claro que eu não preciso, aliás não quero, ficar contando para as pessoas que eu descobri que fui estuprada, porém não deve ser um motivo de vergonha para nenhuma mulher que passa por isso. Eu ficava com aquilo na cabeça “caramba, eu fui estuprada e não percebi. Que idiota. Que vergonha de ter flertado com um abusador”. E eu me toquei de que não é justo termos vergonha de forma que fiquemos engolindo a seco e guardando a sete chaves.

Nós mulheres precisamos falar sobre isso de forma íntima, sem tabu e sem medo de se expor. Isso com certeza pode ajudar mulheres a identificarem, com clareza, as características que difere um estupro de um fetiche, por exemplo.

Infelizmente algumas de vocês que lerem esse texto vão se lembrar de situações de estupro que vivenciaram. Isso vai ser muito doloroso como foi para mim. Eu literalmente descobrir que fui estuprada e foi um passo enorme assumir isso dessa forma sem me culpar ou me julgar por isso.

Para quem precisar de apoio eu estarei a disposição.

thamyradomile@gmail.com
Tha_radomile

comentários

  1. Tha, que texto forte. sinto muito que você tenha passado por isso, que tantas de nós passem por isso todos os dias. obrigada por compartilhar conosco, obrigada mesmo. tô até sem palavras, só consigo agradecer mesmo pela coragem e a iniciativa de escrever sobre um momento tão delicado. <3

  2. Querida, me sinto grata por ter conseguido entender isso depois de tantos anos e de poder vir aqui nessa pág linda com essa singela contribuição que é também, de alguma forma, compromisso com nossa emancipação ser segura. Fico feliz que esse relato tenha atingido o objetivo que eu gostaria.

  3. Também já aconteceu comigo, e fui perceber recentemente, 10 anos depois, porque nos sentimos culpadas,pois em algum momento demonstamos algo para a pessoa. Mas isso não lhe da o direito de forçar uma situação, um estupro. E demora para entender porque é como vc falou, viemos de um mundo que é normal homem pegar mulher a força. Ou era! Chega!

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