Conto: Coleção

conto a coleção

Amanda deslizava desinteressada o dedo para a esquerda sistematicamente até que um barbudo lhe chamou atenção. Havia nela um medo em dar o grande X para o homem de sua vida e, talvez, ali estivesse ele. Binho, assim abreviadamente, se resumia em poucas linhas. Cansado de sua cidade de origem resolveu se aventurar na megalópole chamada São Paulo e seu meio de transporte era a bicicleta, que de maneira convicta chamava de bike. Divorciado, algumas tatuagens, barba grande, roadie e vegetariano. Interessante, ela logo pensou com a sobrancelha meio arqueada, dedo indicador para direita! Automaticamente as fotos dos dois apareceram como combinação no centro da tela – é um sopro de sorte quando alguém que você achou interessante também lhe acha interessante. Sem esperar mandou um breve oi, não muito tempo depois ele respondeu e engataram em uma conversa divertida. Aquelas amenidades que costumamos conversar quando queremos causar boa impressão. Música, comida, último show legal em que foi, filmes cabeçudos e o que fazer para se divertir em uma cidade onde se paga para respirar. Ela sempre usou do fato de ser uma exímia conhecedora de cerveja para convidar homens para encontros, mas com ele falhou. Além de não comer carne, não tomava cerveja. Mesmo assim ela o convidou para uma festa de amigos, convite que logo ele aceitou, mas em seguida desmarcou. Alguma coisa havia acontecido no seu estúdio de gravação, mandou milhares de pedidos de desculpas com emojis tristes. “Tudo bem” ela disse.

Como todas as conversas que começam empolgadas e engatam de maneira rápida nesse tipo de aplicativo, a deles não fugia à regra e tinha como combustível o tesão. Não demorou para que todos deixassem claro que estavam a fim de sexo em primeiro lugar, depois quem sabe rolaria um relacionamento. Assim que passaram para o Whatsapp, ele apresentou sua arma secreta: como todo pernambucano ele sabia usar o sotaque como lubrificante. “Danosse, vou ter que te apresentar Olinda”.

A voz dele era malemolente, e sabendo do poder que tinha ali ao alcance da mão ele não hesitava em mandar mensagens de áudio “minha linda… queria tu aqui”, assim que engataram em textos e fotos. Vira e mexe ela provocava mandando alguma foto que mostrava mais a perna, insinuava o contorno do peito e ele respondia “tá me botando doido, venha ver como tô duro” para em seguida enviar uma foto bem detalhada do pau duro, babando por ela. Os dias seguiram assim, cheio de trocas virtuais mas nas diversas vezes que tentaram algo na realidade física, ele se complicou e não conseguiu ir. E ela foi ficando desinteressada porque nunca sabia se ele não estava afim, ou se não podia e até passou por sua cabeça que o lance dele era ficar no celular em uma interminável masturbação virtual. Uma pena, ela não poupava dedos, vibrador e nem gemidos quando o assunto eram as longas ligações em que ele detalhava o que faria com ela. Aquela máxima “quem quer faz” começou a ecoar na sua cabeça. Ele não se esforçou o suficiente, era hora de seguir o baile.

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Como cachorro que faz xixi para demarcar território, Binho às vezes reaparecia em mensagens de texto despretensiosas, em uma delas durante uma turnê mandou uma foto bonita do pôr do sol. Alguns dias depois a tela do celular acendeu e estava escrito “Binho: Te vi descendo a Augusta, estava linda”. Dois dias se passaram e uma nova mensagem “Você nunca me nota na rua, sempre de fones de ouvido”. Se era para ser fofo ele estava completamente equivocado e na terceira mensagem cobrando atenção desse jeito subjetivo ela retrucou “Eu estou a pé, você de bike. Quem sabe na próxima você toma coragem e me chama. Se não rolar, não precisa mandar mensagem… É estranho parecer que sou observada na rua”. Houve silêncio de ambas as partes, ficou nítido que a falta de controle a enlouquecia.

Amanda já parecia ter esquecido completamente de Binho, e das prazerosas siriricas que a voz dele rendeu quando um desconhecido usando óculos de grau a parou na rua de noite. Ela olhou surpresa e apesar de achar a pessoa interessante visualmente fez cara de “não nos conhecemos”. O até então desconhecido disse “Sou eu, Binho”.

Meio atônita por ele realmente existir, meio esperançosa novamente por enfim botar um ponto final naquela masturbação sem fim, ela se desculpou, culpou os óculos esquecidos em casa e a má iluminação da rua por ser incompetente em reconhecimento facial. Ele riu dessa última parte porque ela fez questão de falar alto esse pensamento. A estranheza de quem já praticou sexting e nunca passou disso era palpável, ali no meio da rua. As mãos dentro do bolso, o pé chutando o ar, aquela conversa que não engrenava direito mostrava que ele ainda tinha interesse e todo esse tempo ele esteve realmente ocupado. E bateu toda a vontade de voltar a sair com ele, falar putaria e gemer por ele, dessa vez com ele. Eles se despediram e assim que entrou no metrô o celular de Amanda vibrou e na mensagem Binho anunciava “Quase não me segurei, queria te agarrar”. Foi como se alguém jogasse gasolina na fogueira, ela prontamente respondeu “deveria ter aproveitado”, sem tomar fôlego emendou “vamos nos ver segunda?” a resposta veio rápida e certeira “sim!”.

Foram três longos dias de mensagens que variaram entre textos e áudios, o sotaque que ele cultivava da terra natal era seu grande trunfo. Tudo ficava mais bonito com o som anasalado que ele aplicava aos erres, ês ou ôs. Era tesão o que ela sentia e ele tentava misturar romance em suas falas. Era difícil não cair quando ele dizia que um dia iria levá-la para passear em “Ricifi” e de mãos dadas eles foderiam vendo a movimentação próxima do Teatro Santa Isabel.  Logo depois que ela enviou uma foto de decote sem sutiã ele pediu “mostre, mostre mais. Mostre TU-DI-NHO” ela exibiu os mamilos entumecidos e a pele arrepiada. A voz dele parecia um gato se espreguiçando quando disse na mensagem seguinte “quero tu sentada aqui…. rebolando bastante”. Ela resolveu provocar, espelho na lateral da cama, quadril encaixado para cima, calcinha fio-dental e uma bela foto da bunda arrebitada, e na legenda “quero sua mão aqui”. Nessa noite os dois quase se devoraram, só não o fizeram porque ele estava no Rio de Janeiro.

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Na segunda, como marcado, ele apareceu em sua casa. Suado, de bicicleta e falhando em esconder o volume na calça. Ela abriu o portão, pegaram o elevador e quase não conseguiram chegar até a porta do apartamento. Quando finalmente se desgrudaram, no batente da porta, os rostos dos dois estavam vermelhos e o batom vermelho que ela havia passado agora estava por grande parte da barba dele. Com as mãos ela tentou limpar e ele anunciou “eu tava doidinho para borrar esse teu batom”. Não deu tempo de chegar no quarto, na sala os dois não conseguiram ficar vestidos, sem desgrudar os olhos um do outro eles arrancaram as peças que impediam o contato da pele. Na mão de Binho, a camisinha já anunciava que não demoraria muito para que ele estivesse dentro de Amanda.

Assim que ficaram nus, ele a puxou para si, com a rapidez de quem está decidido e a virou contra a parede beijando seu pescoço. Ela estava entregue ao dicionário sexual de Pernambuco. Enquanto a boca se ocupava de lamber, morder e chupar do pescoço ao cóccix a mão direita dele abria a bunda que ela lutava para empinar mais. Na ponta dos pés Amanda só conseguia sentir a parede gelada em contato com seu rosto, a respiração dele esquentando sua bunda e a barba fazendo leves cócegas eróticas. Assim, na sala de casa, Amanda gozou pela primeira vez com o recifense. Logo que gozou as forças faltaram nas pernas e ela lentamente deslizou pela parede, foi nessa hora que ele resolveu vira-la. O rosto, aquele rosto que ela evitava mostrar nos nudes que ela enviava para ele. Eram as expressões dela que o interessavam: “abra bem a perna” ele ordenou e com a destreza rítmica de quem cresceu sob o  sol e o frevo ele a fez ir as estrelas. Enquanto a penetrava, suas mão esquerda e boca se ocupavam dos seios, a mão direita não parava de estimular o clitóris o que fazia com que ela se contorcesse implorando para que ele não parasse. Depois de algum tempo de penetração e mais um mini orgasmo ele deu sua cartada final. Se abaixou em direção à buceta e avisou “Goza! Quero sentir teu gosto”,  e não mediu esforços até ela se esvair ali, de pernas abertas na sala.

Todo o tesão dos meses foram exorcizados em uma única noite sem fim, mais um sotaque para a coleção, mais uma aventura com um hipster em São Paulo. Ele embarcou em mais uma viagem, conheceu outra pessoa com quem ele passou a trocar mensagens e ela embarcou em uma nova conversa, cheia de nudes com um carioca que falava arrastado para quem ela sempre pedia que a chamasse de gostosa.

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