As nossas não relações

Boy Lixo

Há algum tempo vejo brotar textos sobre “boy lixo” na minha timeline. É ótimo ajudar outras mulheres a notarem as ciladas em que se encontram, mas há algo que me incomoda em alguns ecos sobre a definição de boy lixo. Concordo em muitos casos, inclusive conheço e já sai com alguns – e não me orgulho. Em outros casos, me pergunto: será que em algum momento não passamos a nos portar como o Ross Geller (de Friends) em relação a nossa presença na vida do crush/boy/relacionamento?

(lembra como todos os atos desse cara só giravam em torno dele?)

Está certo classificar como lixo alguém só porque ele não está tão afim assim, ou achar que ele tem a obrigação em corresponder com suas expectativas, quase sempre criadas de maneiras unilaterais? Sim, as expectativas quase sempre são apenas suas, mesmo quando o outro é aquele cara meio feio e meio gordinho. Achar que alguém está no campo obrigatório de correspondência por não ser o padrão estético socialmente imposto é vergonhoso e cruel. É reproduzir o que ano após ano é feito contra mulheres, então não seja o reflexo dessa parte podre da sociedade.

(Se você sai com pessoas fora do padrão para manipulá-las o lixo é você)

Intrigada com o perfil que se encaixaria com o boy lixo, mas de maneira menos vingativa, resolvi perguntar para algumas amigas quando o crush entra na triste lista. As respostas variam, mas estão quase sempre dentro da mesma lógica: homens que odeiam as mulheres e são incapazes de trocas afetivas de qualquer espécie, não conseguindo assumir qualquer responsabilidade em seus relacionamentos, independente de quais sejam eles. São aqueles caras desonestos, que cometem agressões físicas e/ou psicológicas contra suas parceiras. Não há nenhuma ligação com a aparência física ou classe social, está apenas ligado a própria satisfação dele e até mesmo na negação da possibilidade de qualquer construção que ultrapasse sua individualidade.

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O grande dilema dos nosso tempos líquidos

O sexo é bom, a conversa flui, as viagens acontecem e os amigos sabem da existência um do outro. Tudo deveria cheirar a mar de rosas, mas você decidiu que quer namorar e ele não. Ele está ali para tudo, menos para um relacionamento sério e duradouro, e ao contrário do que diz a regra, ele não está mentindo sobre isso. Está claro para ambos, mas você insiste em tentar transformá-lo no ideal de relacionamento e seguir adiante com os planos que você sonhou por anos – não exatamente com ele, mas com alguém que figurasse bem na fantasia moldada por anos no seu inconsciente, por tudo o que nos rodeia e fala de amor.

Ele te fala sobre não esperar nada além do que ele está disposto a te dar – e nessas entrelinhas leia nada de compromisso sério -, mas em algum momento a rotina de casal faz com que você acredite que ele terá um estalo e você será eleita a mulher da vida dele. Essa esperança tóxica de vínculo afetivo que ultrapassa a cumplicidade, carinho, atenção não supera o desejo de liberdade que seu par nutre. Isso automaticamente o torna o boy lixo da sua vida?

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Se por um lado, o movimento de classificação dos boys lixos é uma demonstração nítida de que as mulheres começam a não aceitar qualquer coisa como comportamento natural e aceitável de homem. Por outro, estamos agindo em alguns casos como as personagens que romantizam personas stalkers e egocêntricas, como o Tom Hansen, de 500 dias com ela.

(Esse cara namorou sozinho o filme inteiro)

Relacionamentos só são sistemas de trocas se todas as partes envolvidas concordarem em estar nele. Eu sei que ao longo de anos a criação das mulheres foi pautada em acreditar que seríamos capazes de alterar alguém e moldá-lo, ou nos entortar o suficiente para caber e viabilizar uma relação cômoda para ambas as partes, mas não há como cobrar reciprocidade e vínculo de alguém que deixou claro que não está disposto e não quer. Portanto, desistir desse boy é um ato de cuidado com você mesma. Caso o contrário, esteja disposta a ter somente uma boa companhia sem nenhuma expectativa. A responsabilidade também deveria vir incluso no novo pacote mulher independente, mas às vezes somos negligentes com a nossa autoestima e amor próprio.

A liberdade é linda, porém assustadora quando batemos de frente com o voo livre do outro. Seja porque uma pessoa se feriu o suficiente para não querer mais mergulhar de cabeça em nada sério, ou porque ele não está tão afim de você, estar com o boy lixo ou em uma relação que não vai dar em lugar nenhum ainda é uma escolha sua.

E se, ainda assim valer a pena, aceite a sugestão de Chet Baker e Let’s get lost, lost in each other’s arms. Let’s get lost, let them send out alarms.

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