Ai, não podemos mais paquerar!

ainaopodemais
Projeto Nós, Madalenas - Uma palavra pelo feminismo - por Maria Ribeiro

Parece que os últimos acontecimentos criaram um frisson na população masculina. Tudo agora é assédio!

Eles não sabem ler mentes.
Não se pode mais paquerar.
É o fim dos tempos!

Mas sabemos bem que paquera não é assédio. A diferença base está numa coisa chamada consentimento. A forma como isso se manifesta pode levar várias palavras pra explicar, mas as pessoas envolvidas sabem. Sim, elas sabem.

Quando vejo determinadas reações masculinas (e comentários que não vale a pena reproduzir aqui) observo como ainda vivemos construções deturpadas e extremamente misóginas em relação ao que deveria ser a tal da “paquera”.

Por que ?
Nós viemos de uma construção heteronormativa onde as mulheres precisam “se dar valor”, “se dar respeito”, não podem ser “fáceis”. Os homens tinham que fazer de tudo para conseguir a mulher, como se ela fosse um troféu. Essa narrativa, além de desumanizar a mulher, a tira do lugar de sujeito, nega todos os seus desejos e a reduz a um objeto, ao prêmio para o homem, para a sua satisfação.

Em outras palavras: a mulher não pode admitir seus desejos. Nunca! A mulher quer transar? Absurdo!!! A mulher gosta de sexo? Jamais!!! Isso é o maior dos tabus e deve ser negado até a morte. Ela só serve para satisfazer os desejos masculinos, dar prazer ao homem.

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Isso sim cria uma série de problemas estruturais graves.

Primeiro: a relação da mulher com sua própria sexualidade é deturpada desde o início. Seus sentimentos em relação ao sexo são confusos e contraditórios. Não pode querer. Não pode admitir querer. Senão é puta, é vadia, é vagabunda. Então tem que negar, negar até a morte. Tem que se fazer de difícil para “se dar valor”. Aí o que temos é a sociedade oprimindo, esmagando os desejos naturais da mulher e forçando um comportamento anti-natural em relação ao sexo.

Essa aberração também contribui para a atitude masculina de não respeitar que não é não! De achar que a mulher está fazendo “doce”. Que ele tem que insistir e, se não conseguir, tomar à força! Não é isso que é estimulado por uma sociedade que romantiza o assédio e até o estupro? Que os colocam como situações naturais e até mesmo desejáveis?

Estamos lidando com músicas que fazem literal apologia ao estupro nesse exato momento no Brasil. Ainda vivemos em uma sociedade que naturaliza o abuso e o comportamento assediador masculino. Aí quando essa questão começa a ser discutida e as denúncias surgem na mídia,  “nossa, tudo agora é assédio, não se pode mais paquerar”.

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Me poupem né coleguinhas?

Projeto Nós, Madalenas – Uma palavra pelo feminismo – por Maria Ribeiro

O que não pode é vocês continuarem reproduzindo o comportamento onde “forçar a barra”, em diversos níveis,  é natural. Respeitem a mulher: é simples assim. Respeitem o sim e o não. Se ela não esconde seus desejos e tem uma relação saudável com a sexualidade, respeite. Entenda que ela tem sentimentos e quereres, assim como você, e não deve ter vergonha ou se sentir oprimida por admiti-los. Se ela não quer sair com você, ou se ela saiu mas não quer transar, respeite. Não pressione, não coerça, não force, não insista. Apenas dê espaço e respeite a mulher pelo que ela é – olha só!!! –  um ser humano, assim como você.

A paquera é um jogo saudável e todo mundo gosta. Mas para ser paquera deve existir uma coisa chamada reciprocidade. E você, mulher, você é livre. Para transar, para não transar, para querer, para negar, para mudar de ideia. Esse é um espaço nosso por direito.

Sim é sim, e deve ser respeitado.
Não é não, e deve ser respeitado.

Passou disso, é assédio.

Um comentário

  1. Adorei o texto! E como estou lendo ele "pós-carnaval/bloquinhos de rua", achei que tivesse algo relacionado com o fato dos adesivos "não é não", o fato dos homens se sentirem mais oprimidos neste carnaval porque não podiam nem dizer "oi" que já recebiam uma cara feia ou algum blá blá blá parecido...porque estive nas ruas e era o que eu mais ouvia dos homens educados que conheci!
    Acho que não podemos rotular, mas existe a geração "Disney", "Britney Spears"...e da "Anita". Gostei do texto e fico infeliz que poucas mulheres vão ler e entender o contexto real dele! Obrigada.

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